
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

Resposta Direta: O Seguro D&O deve ser acionado imediatamente ao primeiro sinal de uma "Reclamação" ou "Circunstância de Sinistro" — não espere o processo judicial formalizar. Uma simples notificação extrajudicial, um ofício da CVM, uma carta da Receita Federal ou uma citação em inquérito policial já são gatilhos suficientes para acionar a apólice e garantir o custeio da sua defesa.
Segunda-feira, 9h15. Você acabou de chegar no escritório. Há um envelope do cartório na sua mesa. Você abre. É uma citação judicial. Um ex-funcionário está processando você pessoalmente por assédio moral, pedindo R$ 200 mil de indenização.
Seu coração acelera. Você pega o telefone para ligar para o advogado. Mas antes disso, há uma pergunta mais urgente: "Eu tenho Seguro D&O. Será que isso cobre? Como eu aciono?"
E aqui está o problema: muita gente tem o seguro, mas não sabe como usá-lo quando o momento chega. Perde prazos. Comete erros que anulam a cobertura. Ou simplesmente deixa para avisar a seguradora tarde demais — e descobre que perdeu o direito à proteção.
Este artigo é um guia técnico e prático para executivos que precisam acionar seu Seguro D&O. Você vai aprender quando acionar, como acionar, qual documentação precisa reunir, quais erros evitar, e o que esperar da seguradora em cada etapa do processo.
Se você está lendo isso porque acabou de receber uma notificação, pare tudo e leia com atenção. O que você fizer nas próximas 24-48 horas pode determinar se você terá ou não cobertura.
Antes de saber como acionar, você precisa entender quando acionar. E aqui mora uma confusão comum: muita gente acha que o sinistro só existe quando há um processo judicial formal. Errado.
As apólices de D&O trabalham com dois conceitos fundamentais:
1. Reclamação (Claim)
É uma exigência formal de compensação ou reparação dirigida contra você. Pode ser:
Se alguém está formalmente exigindo algo de você — seja dinheiro, seja uma resposta, seja uma investigação —, isso é uma Reclamação. E você deve acionar o seguro.
2. Circunstância (Circumstance)
É uma situação ou fato que pode razoavelmente dar origem a uma reclamação futura. Exemplos:
Aqui está o pulo do gato: você pode (e deve) avisar a seguradora sobre uma Circunstância mesmo que ainda não exista processo.
Por quê? Porque se você avisar durante a vigência da apólice atual, e o processo vier no futuro (mesmo depois que a apólice já expirou), você ainda terá cobertura. É uma forma de "estender" a proteção.
Reclamação:
Você recebe uma carta da Receita Federal questionando sua responsabilidade pessoal como sócio-administrador em uma dívida tributária de R$ 800 mil. A carta pede manifestação em 30 dias e indica que, caso não haja resposta, seu CPF será incluído na Dívida Ativa.
Isso é uma Reclamação formal. Acione o seguro imediatamente.
Circunstância:
A empresa fez uma rodada de demissões em massa. Três semanas depois, você recebe a informação (de forma extraoficial) que um grupo de ex-funcionários contratou um escritório de advocacia conhecido por ações coletivas trabalhistas. Ainda não há processo, mas é questão de tempo.
Isso é uma Circunstância. Avise a seguradora agora, antes do processo formalizar.
Toda apólice de D&O define o que é considerado um "Ato Danoso" (Wrongful Act) — ou seja, o tipo de conduta que está coberta.
Geralmente, inclui:
Leia essa definição nas Condições Gerais da sua apólice (documento aprovado pela SUSEP). Se o que você está sendo acusado de fazer se enquadra nessa definição, há cobertura.
Aqui está uma mudança importante na forma como o mercado opera: o valor real do D&O está no adiantamento dos custos de defesa, não apenas no pagamento de indenização final.
Por quê? Porque:
Uma boa apólice de D&O garante que a seguradora adianta esses custos desde o dia 1, sem esperar o desfecho do processo. Isso é crítico.
Agora vamos ao operacional. Você identificou que tem uma Reclamação ou Circunstância. O que fazer?
Tempo é essencial. A maioria das apólices exige que você avise a seguradora "tão logo tome conhecimento" da reclamação ou circunstância.
Atrasar esse aviso pode configurar "agravamento de risco" — o que dá à seguradora o direito de negar cobertura, alegando que a demora prejudicou a defesa ou tornou o caso mais caro/complexo.
Como avisar:
O que informar no aviso inicial:
Não precisa ser um relatório detalhado. Precisa ser rápido e factual.
Após o aviso, a seguradora vai solicitar documentação mais completa. Separe:
Documentos obrigatórios:
Documentos complementares (podem ser solicitados depois):
Dica prática: Monte uma pasta digital com toda essa documentação desde o início. Vai facilitar muito se precisar acionar recursos ou se houver mudança de advogado no meio do processo.
Aqui entra uma decisão importante: quem vai te defender?
Livre Escolha vs. Lista Referenciada
As apólices variam quanto à escolha de advogado:
Apólices com Livre Escolha:
Você pode contratar qualquer advogado que quiser. A seguradora não interfere na escolha. Porém, os honorários devem ser "razoáveis e compatíveis com a prática de mercado".
Na prática, isso significa que a seguradora vai avaliar se o valor cobrado está dentro dos padrões da OAB local ou da média regional para casos similares. Se achar excessivo, pode questionar.
Apólices com Lista Referenciada:
A seguradora oferece uma lista de escritórios credenciados. Você escolhe um da lista, e os honorários já estão pré-negociados. É mais rápido e sem discussão de valores.
Qual é melhor?
Depende. Se você já tem um advogado de confiança especializado no tipo de processo que está enfrentando, a livre escolha é vantajosa. Se não conhece ninguém, a lista referenciada facilita.
Importante: Independente da escolha, informe a seguradora antes de contratar o advogado. Contratar por conta própria e depois pedir reembolso pode não funcionar se a seguradora não tiver aprovado previamente.
Uma vez que a seguradora analisou o caso e aprovou a cobertura, ela vai:
A partir desse momento, seus custos de defesa estão cobertos até o limite da apólice.
Tão importante quanto saber o que fazer é saber o que evitar. Alguns erros podem anular completamente sua cobertura.
Este é o erro mais comum e mais caro.
Se você fechar um acordo — seja judicial, seja extrajudicial — sem a aprovação prévia e por escrito da seguradora, você pode perder toda a cobertura. E não vai conseguir reembolso.
Por quê? Porque a apólice tem a chamada Cláusula de Acordo (Consent to Settle). Ela diz que o segurado não pode reconhecer responsabilidade, assumir obrigação ou fazer acordo sem o consentimento expresso da seguradora.
Exemplo do que NÃO fazer:
Você recebe uma notificação extrajudicial. O advogado da outra parte liga e diz: "Se você pagar R$ 50 mil hoje, encerramos tudo sem processo." Você, querendo resolver rápido, aceita e paga.
Depois, você aciona o seguro pedindo reembolso. A seguradora nega, alegando que você fez acordo sem consultar. Você perdeu R$ 50 mil e a cobertura.
O certo:
Sempre que houver possibilidade de acordo, você informa a seguradora, apresenta os termos propostos, e pede autorização. Se a seguradora concordar que é um bom negócio, ela autoriza e paga. Se discordar, ela assume o risco de ir até o fim no processo.
Nunca, em hipótese alguma, assine nada que reconheça culpa, responsabilidade ou dívida sem orientação jurídica e sem consultar a seguradora.
Frases como "eu realmente errei nisso" ou "assumo a responsabilidade pelo ocorrido" em documentos oficiais podem ser usadas contra você e dar à seguradora argumentos para negar cobertura.
Aqui está um dilema real: você foi citado em um processo com prazo de 15 dias para contestar. Avisou a seguradora, mas ela ainda está analisando a cobertura. O que fazer?
Não deixe o prazo vencer.
Mesmo sem confirmação final da seguradora, você precisa protocolar sua defesa. Perder o prazo pode causar revelia (você é considerado culpado automaticamente) — e a seguradora pode alegar que o dano foi agravado por sua negligência.
Como agir:
É melhor gastar um pouco do bolso para não perder o prazo do que perder a cobertura por completo.
Guarde cópias de tudo:
Se houver disputa futura sobre cobertura, essa documentação será essencial.
Para facilitar sua compreensão, aqui está um resumo do que a seguradora tipicamente cobre na fase de investigação e defesa:
Importante: Cada apólice tem suas especificidades. Esta tabela é um panorama geral. Sempre consulte as Condições Gerais da sua apólice para confirmar.
Esta é a pergunta que causa mais ansiedade: "Se eu for acusado de fraude, a seguradora vai me largar?"
Vamos ser diretos: se ficar comprovado que você agiu com dolo — ou seja, com má-fé intencional, fraude, desvio de recursos ou enriquecimento ilícito —, o seguro não cobre. Essa é uma exclusão legal e universal.
Mas aqui está a proteção crítica:
A seguradora não pode simplesmente negar cobertura só porque você foi acusado de fraude. Acusação não é condenação.
Cenário A: Você é inocentado
Ótimo. O processo encerra. A seguradora pagou sua defesa e o assunto está resolvido. Você não deve nada.
Cenário B: Você é condenado por dolo/fraude
Aqui entra a cláusula de reembolso. A seguradora pode (e vai) cobrar de volta todo o dinheiro que adiantou para sua defesa. Você terá que devolver honorários advocatícios, custas, tudo.
Porque garante que você não fica desamparado no momento mais crítico. Mesmo sendo acusado de algo grave, você terá recursos para a melhor defesa possível. E se você realmente for inocente (como a maioria dos casos), sai ileso.
Mas se você realmente fraudou, vai pagar a conta. E é justo que seja assim.
O Seguro D&O é uma ferramenta de defesa poderosa — mas não é um cheque em branco para impunidade. É uma rede de segurança para gestores honestos que enfrentam acusações, processos e investigações decorrentes de decisões de negócio.
Para que essa proteção funcione quando você mais precisa, três coisas são essenciais:
1. Velocidade: Avise a seguradora imediatamente ao primeiro sinal de problema
2. Transparência: Forneça toda a documentação solicitada de forma completa e honesta
3. Coordenação: Mantenha comunicação constante entre você, seu corretor e a seguradora
A agilidade na comunicação entre Empresa, Corretor e Seguradora é o fator crítico de sucesso. Quanto mais rápido você age, maiores as chances de reverter a situação ou ao menos minimizar os danos.
E lembre-se: o D&O não protege contra erros processuais que você comete depois da citação. Não protege contra acordos precipitados que você assina sem consultar. Não protege contra prazos perdidos por negligência.
A seguradora paga sua defesa. Mas você ainda precisa se defender bem.
Quer entender em profundidade todas as coberturas do Seguro D&O e quando cada uma delas é acionada? Leia nosso Guia Completo de Seguro D&O e descubra como essa proteção funciona na prática.
Recebeu alguma notificação, intimação ou está preocupado com a exposição dos seus executivos? Não espere o prazo processal correr.
A Lifebis tem uma equipe especializada em Sinistros de D&O pronta para orientar o aviso de sinistro com segurança, agilidade e total conformidade com as exigências da seguradora.
Sabemos exatamente qual documentação reunir, como formalizar o aviso, e como garantir que você não perca cobertura por erros formais ou atrasos.
Entre em contato agora com nossa equipe de Sinistros e tenha a tranquilidade de saber que sua defesa está sendo estruturada da forma correta desde o primeiro momento.
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