
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

A estrutura do Seguro D&O (Directors & Officers) é modular e possui três camadas de proteção complementares que precisam ser compreendidas com clareza técnica. Side A protege o CPF do executivo quando a empresa não pode indenizá-lo, seja por insolvência, falência ou vedação estatutária. Side B reembolsa o CNPJ da empresa quando ela adiantou recursos para pagar a defesa do executivo. Side C protege a própria entidade (a empresa) contra reclamações diretas, sendo especialmente relevante para companhias de capital aberto sujeitas à fiscalização da CVM e acionistas minoritários.
Confundir essas coberturas ou não estruturá-las adequadamente na apólice pode deixar o patrimônio pessoal dos diretores completamente exposto em caso de insolvência da empresa, ou drenar o limite de indenização disponível para proteger quem realmente precisa: as pessoas físicas que tomam as decisões estratégicas. Vamos detalhar o tecniquês jurídico de cada uma dessas camadas.
O Side A representa a camada mais crítica de proteção no Seguro D&O e é a razão pela qual muitos executivos aceitam posições de alta responsabilidade sem temer a ruína financeira pessoal. Esta cobertura entra em ação nos cenários onde a empresa não pode ou não quer pagar a defesa jurídica e eventuais indenizações do executivo.
O termo técnico usado no mercado internacional é "Non-Indemnifiable Loss" (perda não indenizável), que descreve perfeitamente a situação: são casos em que o administrador não consegue ser indenizado pela empresa que ele geria, ficando exposto com seus recursos pessoais.
Cenários onde o Side A se torna essencial:
Falência ou Recuperação Judicial: Quando a empresa entra em processo de falência ou recuperação judicial, a Lei de Falências (Lei 11.101/2005) impõe severas restrições ao uso dos recursos da companhia. O caixa fica travado e destinado prioritariamente ao pagamento de credores conforme a ordem legal de preferência. Nesse momento, se um diretor for processado por decisões tomadas antes ou durante a crise, ele não pode contar com a empresa para pagar sua defesa. O Side A garante que a seguradora pagará diretamente os honorários advocatícios, custas processuais e eventuais condenações do executivo.
Insolvência Financeira: Mesmo antes de um decreto formal de falência, a empresa pode simplesmente não ter recursos em caixa para custear a defesa de seus gestores. Em situações de grave crise de liquidez, o Side A protege o executivo independentemente da saúde financeira da companhia.
Vedação Estatutária ou Legal: Alguns estatutos empresariais proíbem expressamente o reembolso de executivos em determinadas circunstâncias, especialmente em casos de violação de deveres fiduciários ou conflitos de interesse. Além disso, há situações onde a própria lei veda o reembolso, como em determinadas penalidades regulatórias. Nesses casos, o Side A funciona como uma rede de segurança quando todas as outras portas se fecham.
Recusa da Empresa: Pode ocorrer de a empresa, por decisão do conselho ou dos novos gestores, simplesmente recusar-se a custear a defesa de um executivo anterior. Disputas internas, mudanças de controle acionário ou divergências sobre a legitimidade do ato praticado podem levar a esse cenário. O Side A garante que o executivo não ficará desamparado.
Esta é, sem dúvida, a cobertura mais crítica para a paz de espírito do administrador, pois independe completamente da saúde financeira e da boa vontade da empresa. É a última linha de defesa do patrimônio pessoal construído ao longo de uma carreira.
O Side B é a cláusula mais utilizada no dia a dia corporativo e representa a dinâmica mais comum de acionamento do Seguro D&O. Diferentemente do Side A, aqui a empresa possui capacidade financeira e disposição para custear a defesa de seus executivos, mas aciona a seguradora para ser ressarcida dos valores despendidos.
Como funciona na prática:
Quando um diretor ou administrador é processado por um ato de gestão, a empresa, como boa prática de governança e para proteger sua reputação e equipe, adianta todos os custos necessários para a defesa: contrata os melhores advogados, paga as custas processuais, arca com perícias e tudo mais que for necessário. Posteriormente, a empresa aciona a apólice de D&O e é reembolsada pela seguradora dos valores que desembolsou.
Essa estrutura faz sentido empresarial e jurídico. A companhia demonstra apoio aos seus gestores (o que é fundamental para atrair e reter talentos de alto nível), mantém controle sobre a estratégia de defesa e escolha dos advogados, e depois recupera os recursos através do seguro, preservando seu fluxo de caixa.
Pontos críticos de atenção:
O ressarcimento pelo Side B depende fundamentalmente de a apólice estar vigente no momento do pagamento pela empresa. Se a companhia desembolsou R$ 500 mil em honorários advocatícios em janeiro, mas a apólice venceu em dezembro do ano anterior e não foi renovada, o reembolso pode ser negado.
Além disso, o reembolso não é automático ou ilimitado. Ele está sujeito às mesmas exclusões de cobertura que protegem o mercado segurador de abusos. Conforme as diretrizes da SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) e o próprio Código Civil, atos praticados com dolo comprovado em sentença transitada em julgado não geram direito a reembolso. Se ficar judicialmente demonstrado que o executivo agiu com má-fé ou intenção deliberada de prejudicar a empresa, ela não será reembolsada dos custos de defesa.
É importante também considerar que o Side B está sujeito a franquias (retenções) estipuladas na apólice. Se a franquia for de R$ 50 mil e os custos totais forem R$ 200 mil, a empresa será reembolsada em R$ 150 mil, devendo arcar com a diferença.
O Side C representa uma diferença fundamental em relação às coberturas A e B: aqui, o réu é a própria empresa, não as pessoas físicas que a administram. É uma proteção corporativa direta contra reclamações feitas contra o CNPJ.
Origem e contexto de mercado:
A cobertura Side C foi originalmente desenhada para empresas de capital aberto que enfrentam um risco específico: ações de responsabilidade movidas por acionistas minoritários, investigações da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ou processos relacionados a informações prestadas ao mercado (demonstrações financeiras, fatos relevantes, prospectos de oferta pública).
Nesses casos, o processo não é contra o diretor João ou a diretora Maria especificamente, mas contra a XYZ S.A. enquanto entidade. A empresa é acusada de ter divulgado informações incorretas, omitido fatos relevantes, violado normas da CVM ou prejudicado investidores através de atos corporativos.
Evolução do Side C no mercado brasileiro:
Embora tenha surgido focado em companhias abertas, o Side C vem sendo cada vez mais adaptado para empresas de capital fechado em situações específicas. Investigações de órgãos reguladores como CADE (antitruste), Banco Central, ANVISA, ANS e outros podem gerar processos administrativos contra a empresa, não necessariamente contra seus administradores individualmente. Nesses casos, o Side C pode cobrir os custos de defesa da entidade.
A nuance crítica do Limite Máximo de Indenização:
Aqui está um ponto técnico que muitos CFOs só descobrem tarde demais: o Side C geralmente compartilha o mesmo Limite Máximo de Indenização (LMI) das coberturas A e B. Isso significa que não há uma "pilha" separada de recursos para cada cobertura, mas sim um limite agregado único.
Na prática: se a apólice tem LMI de R$ 10 milhões e a empresa consome R$ 8 milhões em uma defesa coberta pelo Side C (um processo movido por acionistas, por exemplo), sobram apenas R$ 2 milhões para proteger os diretores individualmente através do Side A ou reembolsar a empresa pelo Side B em outros processos.
Essa dinâmica cria um risco estratégico: em empresas com múltiplas frentes de litígio, a proteção corporativa (Side C) pode drenar recursos que deveriam estar reservados para proteger as pessoas físicas dos executivos. É fundamental que a estrutura da apólice reflita essa preocupação, seja através de sublimites específicos para o Side C, seja através de um LMI robusto o suficiente para acomodar exposições simultâneas.
Para facilitar a compreensão e fixação desses conceitos técnicos, veja esta comparação direta:
Esta tabela deixa claro que apenas o Side A oferece proteção verdadeiramente independente da situação da empresa, o que explica por que executivos experientes sempre verificam se essa cobertura está adequadamente estruturada antes de aceitar posições de liderança.
A regulamentação do Seguro D&O no Brasil passou por modernização significativa com a Circular SUSEP nº 637/2021, que atualizou as normas de produtos de seguros de danos para refletir as melhores práticas internacionais e as necessidades do mercado brasileiro.
Essa norma trouxe maior flexibilidade para as seguradoras estruturarem coberturas, mas também reforçou princípios fundamentais de segurança jurídica. Um dos pontos mais importantes é a clara delimitação das exclusões de cobertura.
O Seguro D&O não cobre e não pode cobrir:
Atos ilícitos dolosos comprovados: Quando há sentença judicial transitada em julgado que comprova que o executivo agiu com dolo (intenção de prejudicar), fraude comprovada ou má-fé deliberada, a cobertura é excluída. Isso está alinhado com o princípio fundamental do Código Civil de que ninguém pode se beneficiar da própria torpeza.
Multas criminais e penalidades de natureza punitiva: O seguro cobre defesa em processos criminais (honorários advocatícios, custas), mas não paga multas ou penas impostas na esfera criminal. A razão é simples: permitir que seguros paguem punições criminais esvaziaria o caráter pedagógico e inibitório do direito penal.
Benefícios indevidos ou enriquecimento ilícito: Se o executivo obteve vantagem pessoal indevida através de um ato de gestão (como insider trading, apropriação de oportunidade corporativa ou recebimento de propina), a cobertura não se aplica aos valores que ele deve devolver.
Essas exclusões são fundamentais para que o Seguro D&O não se torne um instrumento de incentivo a comportamentos antiéticos ou criminosos. O seguro existe para proteger gestores de boa-fé que cometem erros de julgamento ou enfrentam processos questionáveis, não para blindar criminosos.
A SUSEP também estabelece requisitos de transparência nas apólices, exigindo que as condições gerais e particulares deixem claras as coberturas, exclusões, franquias e procedimentos de acionamento. Isso protege tanto segurados quanto seguradoras de disputas desnecessárias.
Depois de destrinchar as três camadas de proteção do Seguro D&O, a conclusão técnica é clara: não existe uma cobertura "melhor" que as outras. Cada uma atende a uma necessidade específica e complementar.
Uma apólice robusta e bem estruturada contempla as três coberturas (A, B e C) equilibradas para proteger tanto o balanço da empresa quanto o patrimônio pessoal dos tomadores de decisão. A proporção e a forma como essas coberturas são organizadas deve refletir o perfil de risco da empresa.
Para uma startup de tecnologia em crescimento acelerado: O foco pode estar no Side A e B, já que o risco regulatório (Side C) ainda é limitado. O mais importante é proteger os fundadores e executivos que estão tomando decisões ousadas e arriscadas para crescer rapidamente.
Para uma companhia aberta negociada em bolsa: O Side C se torna crítico, pois a exposição a processos de acionistas minoritários e investigações da CVM é permanente. Mas isso não pode comprometer a proteção individual dos executivos através do Side A, que continua sendo essencial.
Para uma empresa familiar de capital fechado em processo sucessório: O Side B pode ser a cobertura mais acionada no curto prazo, mas o Side A é vital para proteger os membros da família que estão na gestão, especialmente em casos de conflitos societários que podem levar à recusa da empresa em custear defesas.
O erro mais comum que vemos é empresas contratarem apólices com LMI aparentemente generoso, mas com estrutura inadequada. Um limite de R$ 20 milhões é insuficiente se não há sublimites claros entre as coberturas e uma única reclamação Side C pode drenar 90% do valor, deixando os executivos vulneráveis.
Outro ponto crítico: algumas apólices limitam severamente o Side A ou até o excluem em determinadas situações, oferecendo proteção apenas através do Side B. Isso é insuficiente e arriscado. O Side A deve ser independente, robusto e claramente especificado nas Condições Particulares.
Quer entender mais sobre como as exclusões gerais funcionam e o que realmente está protegido na sua apólice? Leia nosso Guia Completo sobre Seguro D&O e tome decisões mais informadas sobre sua proteção patrimonial.
Sua apólice atual possui sublimites claros para o Side A em caso de falência? Muitos contratos padrão deixam essa lacuna crítica, expondo executivos justamente no momento de maior vulnerabilidade. A estrutura de coberturas A, B e C deve ser desenhada especificamente para o perfil de risco da sua empresa, não copiada de modelos genéricos.
Solicite uma análise técnica da sua apólice →
Nossos especialistas da Lifebis avaliam a estrutura da sua cobertura atual, identificam gaps perigosos e propõem soluções que garantem proteção real, não apenas uma apólice bonita no papel. Proteger executivos é uma ciência, não um checklist.
Insights para líderes e profissionais de RH