
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

São 23h47 de uma quinta-feira. Você está revisando os prazos da semana no sistema do escritório e seu estômago congela: aquele recurso que você tinha certeza que vencia na próxima semana? Era hoje. Passou. Precluso.
O cliente investiu R$ 400 mil naquela causa trabalhista. A sentença foi desfavorável, mas o recurso era forte, com boa chance de reversão. E agora ele perdeu o direito de recorrer. Por sua causa.
Se você nunca sentiu esse aperto no peito, ótimo. Continue fazendo o que está fazendo. Mas se você já passou por isso — ou conhece alguém que passou — sabe que perda de prazo é o pesadelo número um de qualquer advogado. E também a principal causa de processos de responsabilidade civil contra bancas no Brasil.
A boa notícia? Sim, o Seguro de Responsabilidade Civil Profissional (E&O) cobre prejuízos financeiros causados a terceiros decorrentes da perda de prazos processuais, desde que caracterizada a culpa — negligência, imprudência ou imperícia — e não o dolo, que é a intenção deliberada de prejudicar. Essa proteção é vital para a preservação do patrimônio pessoal do advogado e dos sócios, conforme os riscos inerentes à atividade regida pelo Estatuto da OAB.
Mas tem detalhe. E é desses detalhes que vamos falar agora.
Antes de tudo, você precisa entender a diferença técnica que determina se seu seguro vai te proteger ou não. E essa diferença é jurídica, mas simples: culpa é erro honesto; dolo é intenção de causar dano.
Culpa (COBERTO pelo E&O):
Aqui entram todos os erros não intencionais que podem acontecer na rotina caótica de um escritório de advocacia:
Isso é negligência. É imprudência. É imperícia, até. Mas não é má-fé. São erros humanos — graves, com consequências sérias, mas não intencionais. E é exatamente para isso que existe o Seguro E&O.
Dolo (NÃO COBERTO — jamais):
Aqui a história é completamente diferente. Dolo é quando você intencionalmente deixa de cumprir um prazo para:
Nenhuma seguradora no planeta cobre atos dolosos. E nem deveria. A função do seguro é proteger contra riscos imprevisíveis e erros honestos, não servir de escudo para má-fé ou crime.
Aqui vai uma nota de segurança importante: se houver suspeita de dolo, a seguradora vai investigar. Ela tem esse direito contratual. E se ficar comprovado que houve intenção, além de perder a cobertura, você pode responder civil e criminalmente. Então não adianta tentar "dar um jeitinho" — transparência total com a seguradora é a única estratégia que funciona.
Muita gente acha que o E&O serve só para pagar a indenização ao cliente. Se fosse só isso, já seria muito. Mas a proteção vai bem além — e, em muitos casos, o que o seguro cobre antes da condenação é mais valioso do que a própria indenização.
Custos de Defesa (o valor oculto mais importante):
Quando você perde um prazo e o cliente te processa, você vai precisar de advogado. Só que não qualquer advogado — você vai precisar de um especialista em responsabilidade civil profissional. E esses profissionais não são baratos.
Processos desse tipo podem durar anos. Honorários advocatícios facilmente ultrapassam R$ 50 mil, R$ 80 mil, dependendo da complexidade. Perícias, assistentes técnicos, custas processuais — tudo isso vai se acumulando. E o E&O cobre desde o primeiro momento que você recebe a notificação, seja extrajudicial ou judicial.
Deixa eu colocar em perspectiva: conheço casos onde a defesa custou R$ 120 mil e a indenização final foi de R$ 80 mil. Se o advogado não tivesse seguro, teria pago R$ 200 mil do próprio bolso. Com seguro? Zero.
Indenizações ao Cliente:
Aqui entra o valor que o cliente deixou de ganhar (a famosa "perda de uma chance", que vamos detalhar mais adiante) ou o prejuízo direto causado pela revelia ou pelo trânsito em julgado de uma sentença desfavorável que poderia ter sido revertida.
Se o cliente prova que perdeu a possibilidade real de ganhar R$ 200 mil por culpa sua, a seguradora paga essa indenização dentro do limite máximo da apólice. Você não tira um centavo do bolso.
Acordos Extrajudiciais:
Muitas vezes, a melhor estratégia é não deixar chegar ao processo. É sentar com o cliente (ou com o advogado dele) e negociar um acordo que encerre o problema antes de virar uma batalha judicial de anos.
Acordos preservam sua reputação, economizam tempo e estresse. E com o E&O, você pode fazer esses acordos sem comprometer seu patrimônio — desde que a seguradora aprove os termos, claro. A seguradora tem interesse nisso também, porque acordos geralmente custam menos do que processos longos.
Danos à Reputação (indireto):
Embora o seguro não cubra "danos à imagem" diretamente, ao resolver o problema financeiramente, ele minimiza a exposição pública do erro. Clientes satisfeitos (mesmo que por meio de indenização) falam menos do que clientes revoltados brigando na justiça.
Aqui vem um conceito jurídico que todo advogado precisa entender — não só para processar clientes alheios, mas para se defender quando a vaca vai pro brejo.
Perder um prazo não significa automaticamente que você vai pagar o valor integral da causa. A jurisprudência brasileira aplica a Teoria da Perda de uma Chance, que mensura qual era a probabilidade real de vitória do cliente caso o prazo tivesse sido cumprido.
Funciona assim: se você perdeu o prazo de recurso em uma ação trabalhista de R$ 300 mil, o juiz não vai simplesmente dizer "pague R$ 300 mil ao seu cliente". Ele vai analisar: qual era a chance real desse recurso ser provido? 80%? 50%? 20%?
Se a perícia e os precedentes indicam que a chance de vitória era de 60%, a indenização será calculada proporcionalmente: R$ 300 mil × 60% = R$ 180 mil. Se a causa era fraca, digamos 20% de chance, a indenização cai para R$ 60 mil.
Exemplo prático real:
Um escritório de advocacia perde o prazo de contestação em uma ação de cobrança de R$ 150 mil. O cliente processa o escritório por negligência. Durante o processo de responsabilidade civil, a defesa demonstra que:
Resultado: a indenização fixada foi de R$ 45 mil (R$ 150 mil × 30%), e não os R$ 150 mil integrais. A seguradora pagou os R$ 45 mil + os R$ 65 mil de custos de defesa. Total: R$ 110 mil que não saíram do bolso do advogado.
Isso não torna a perda de prazo "menos grave". Mas demonstra que o sistema jurídico não pune o advogado pelo valor total automaticamente — há uma avaliação técnica. E ter uma boa defesa (que o E&O fornece) faz toda a diferença nessa hora.
Quando você percebe que perdeu um prazo, o coração acelera, a mente entra em modo caos. Mas é exatamente nesse momento que você precisa agir com método. Aqui vai o passo a passo:
1. Notifique a seguradora IMEDIATAMENTE
Não espere o cliente descobrir. Não espere ele te processar. No momento que você percebe o erro, acione sua corretora (no caso, a Lifebis). Quanto mais rápido você notifica, mais opções de defesa e acordo você tem.
Muitas apólices têm cláusula de "notificação imediata" — atrasos na comunicação podem prejudicar sua cobertura.
2. NÃO assuma culpa publicamente nem faça acordos sozinho
Isso é crítico: não mande e-mail para o cliente dizendo "foi culpa minha, vou pagar tudo". Não feche acordo de indenização sem falar com a seguradora. Essas atitudes podem anular sua apólice.
Você pode (e deve) ser transparente com o cliente sobre o erro, mas sem fazer promessas financeiras antes de consultar a seguradora.
3. Reúna toda a documentação
Separe tudo que possa ser relevante:
Quanto mais documentação você fornecer, mais rápido a seguradora consegue analisar o caso.
4. Deixe a seguradora conduzir a defesa
A partir do momento que o sinistro é aberto, a seguradora assume. Ela vai indicar advogados especializados, orientar sobre a melhor estratégia, conduzir negociações. Seu papel é cooperar e fornecer informações — não tentar resolver sozinho.
5. Continue trabalhando normalmente
Parece contra-intuitivo, mas você precisa seguir tocando o escritório. O processo de responsabilidade civil vai levar tempo. Enquanto isso, você tem outros clientes, outros prazos, outras responsabilidades. Não deixe um erro paralisar sua carreira inteira.
Vamos ser brutalmente honestos: errar é humano. Mas na advocacia, erros custam caro. Muito caro.
Um único prazo perdido pode gerar um processo que se arrasta por cinco anos, consome dezenas de milhares de reais em defesa e termina em uma condenação que compromete seu patrimônio pessoal, sua casa, suas economias. Sem falar no desgaste emocional, na insônia, na sensação de ter falhado com o cliente.
O Seguro E&O não impede que você cometa erros. Ninguém pode garantir isso. Mas ele transforma um passivo judicial imprevisível e potencialmente catastrófico em um custo fixo mensal gerenciável.
Pensa assim: você paga algumas centenas de reais por mês. Em troca, ganha a tranquilidade de saber que se algo der errado — e eventualmente pode dar — seu patrimônio está protegido, sua defesa está garantida, e você não vai acordar um dia descobrindo que precisa vender seu apartamento para pagar uma indenização.
Escritórios grandes têm E&O. Não porque seus advogados são piores. Mas porque são mais inteligentes na gestão de risco. Eles entendem que proteção patrimonial não é luxo — é estratégia.
E se você é advogado autônomo ou sócio de escritório pequeno? Você está ainda mais exposto. Não tem reserva de caixa corporativa, não tem outros sócios para dividir o prejuízo. É você e seu CPF na linha de frente.
A pergunta não é "será que eu preciso de E&O?". A pergunta é: "será que eu posso arriscar não ter?"
Seu escritório está protegido contra falhas da equipe ou do sistema? Solicite uma análise de riscos e cotação de E&O para Advogados com a Lifebis e blinde seu registro na OAB.
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