
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

Muitas empresas tentam economizar contratando apenas uma extensão de cobertura para a LGPD dentro da apólice de Responsabilidade Civil Geral (RC Geral). Parece fazer sentido, né? Afinal, é mais barato ter tudo numa apólice só do que contratar seguros separados. Mas aqui está o problema: você pode estar economizando hoje para quebrar amanhã.
A principal diferença é que o RC Geral com extensão LGPD foca quase exclusivamente em danos a terceiros — indenizações e custos de defesa decorrentes de vazamento de dados. Já o Seguro Cyber (Standalone) cobre também os prejuízos da própria empresa (First-party), como custos de recuperação de dados, lucros cessantes por interrupção do negócio, pagamento de extorsão (Ransomware, mediante análise) e perícia forense digital.
Traduzindo: se alguém processar sua empresa porque vazou dados dos clientes, o RC Geral com extensão LGPD pode ajudar. Mas se um hacker sequestrar seus sistemas e paralisar sua operação por uma semana, causando prejuízo de R$ 400 mil em vendas perdidas e mais R$ 150 mil para recuperar os dados? O RC Geral vai olhar pra você e dizer: "Não é comigo, amigo."
É essa lacuna que a gente precisa escancarar aqui.
Vamos começar do começo: o Seguro de Responsabilidade Civil Geral foi criado para cobrir danos físicos e corporais. Pensa em um cliente que escorrega no chão molhado da sua empresa e quebra o braço. Ou em um equipamento seu que causa um incêndio no prédio vizinho. Esse é o território natural do RC Geral.
Quando a LGPD entrou em vigor em 2020, as seguradoras rapidamente criaram "extensões de cobertura" que podiam ser adicionadas às apólices de RC Geral. A proposta era simples: paga um pouco mais, e se você vazar dados e alguém te processar, a gente cobre.
E funciona. Até certo ponto.
O limite técnico da extensão:
A extensão LGPD no RC Geral cobre a responsabilidade civil decorrente da Lei 13.709/2018. Isso significa que ela entra em ação quando:
Até aí, ok. Mas aqui está o que geralmente fica de fora:
Custos operacionais internos: Você foi hackeado e precisa contratar uma empresa especializada em segurança da informação para limpar seus servidores, identificar a brecha, restaurar backups e reconstruir o sistema? Isso pode custar R$ 200 mil, R$ 300 mil facilmente. A extensão LGPD no RC Geral raramente cobre isso, porque não é "dano a terceiro" — é custo operacional seu.
Lucros cessantes: Seus sistemas ficaram fora do ar por três dias. Seu e-commerce parou de funcionar. Você deixou de faturar R$ 150 mil. A extensão não cobre. Porque não houve um "terceiro lesado" — foi prejuízo interno seu.
Pagamento de resgate: Hackers criptografaram seus dados e estão pedindo R$ 80 mil em Bitcoin para devolver o acesso. A extensão LGPD no RC Geral não cobre pagamento de extorsão. Cyber standalone pode cobrir (com análise caso a caso).
Gestão de crise e reputação: Você precisa contratar uma assessoria de imprensa para gerenciar a crise, porque o vazamento virou notícia e seus clientes estão em pânico. A extensão não cobre. Cyber cobre.
Repara o padrão? A extensão LGPD foi pensada para quando alguém te processa. Mas um ataque cibernético gera uma montanha de custos antes mesmo de qualquer processo começar. E é aí que mora o perigo.
O Seguro Cyber dedicado foi desenhado especificamente para o mundo digital. Ele não é uma adaptação de um seguro antigo — é um produto nativo para riscos cibernéticos modernos.
A grande diferença está no conceito de First-Party Coverage (cobertura de primeira parte). Enquanto o RC Geral olha sempre para "quem você prejudicou", o Cyber olha para "quanto você perdeu".
Vamos ao que realmente importa — as coberturas exclusivas do Cyber:
Lucros Cessantes por Interrupção de Negócio: Seus sistemas ficaram fora do ar? Seu site caiu? Seu ERP parou de funcionar? O Cyber calcula quanto você deixou de faturar por hora/dia e reembolsa esse valor. Para empresas digitais (e-commerce, SaaS, fintechs), essa é a cobertura mais valiosa de todas.
Custos de Recuperação de Dados e Sistemas: Contratação de especialistas em segurança da informação, empresas de recuperação de dados, reconstrução de sistemas, restauração de backups corrompidos. Tudo isso entra. E não é barato — pode facilmente ultrapassar R$ 300 mil em ataques complexos.
Perícia Forense Digital: Quando você sofre um ataque, precisa descobrir: como eles entraram? O que foi comprometido? Quais vulnerabilidades existem? Isso exige perícia técnica especializada. O Cyber cobre esses custos de investigação.
Gestão de Crise e Assessoria de Comunicação: Sua empresa virou notícia por vazamento de dados. Você precisa contratar uma agência de PR para gerenciar a crise, preparar comunicados oficiais, acalmar clientes. O Cyber cobre essas despesas de gestão de reputação.
Custos de Notificação Obrigatória: A LGPD exige que você notifique todos os titulares de dados afetados. Para uma base de 50 mil clientes, isso significa custos com call center, e-mails, possivelmente até anúncios públicos. O Cyber cobre.
Pagamento de Resgate (Ransomware): Aqui tem uma pegadinha importante. Algumas apólices Cyber cobrem o pagamento de resgate, outras não. E mesmo as que cobrem fazem isso mediante análise criteriosa caso a caso, porque há questões legais envolvidas (você pode estar financiando crime organizado). Mas a diferença é: pelo menos existe a possibilidade. Na extensão LGPD do RC Geral, nem isso.
Multas Administrativas da ANPD (onde a lei permite): Dependendo da jurisdição e da apólice, o Cyber pode cobrir multas aplicadas pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados. No RC Geral com extensão, essa cobertura é incerta ou muito limitada.
Importante: O Seguro Cyber não é uma licença para negligenciar segurança. Se ficar provado que você não tinha nem o básico (firewalls, antivírus, backups, políticas de senha), a seguradora pode negar cobertura por negligência grave.
Olhando essa tabela, fica claro: a extensão LGPD cobre basicamente duas coisas (indenização e defesa). O Cyber cobre dez. Não é uma questão de um ser "melhor" que o outro — é que eles foram feitos para riscos completamente diferentes.
Deixa eu contar uma história que acontece com mais frequência do que você imagina.
Segunda-feira, 8h30. A equipe de TI de uma distribuidora de equipamentos médicos chega no escritório e descobre que todos os sistemas estão inacessíveis. Na tela de cada computador, uma mensagem em inglês: "Your files have been encrypted. Pay 15 BTC to recover access."
Ransomware. Os hackers criptografaram todos os arquivos da empresa e estão pedindo o equivalente a R$ 320 mil em Bitcoin para devolver o acesso. Pior: os backups também foram comprometidos — os invasores ficaram semanas dentro da rede antes de atacar, e deletaram todas as cópias de segurança.
A empresa tem dois seguros: RC Geral com extensão LGPD e um Cyber básico (mas nunca acionou nenhum).
Cenário A: Se tivesse apenas a extensão LGPD no RC Geral
A empresa aciona o seguro. A seguradora analisa e responde: "Sinto muito, mas não há cobertura. Vocês não foram processados por terceiros. Não houve vazamento de dados de clientes que gerou reclamação. Foi um ataque interno aos seus sistemas. Isso não é Responsabilidade Civil — é prejuízo operacional. Estamos negando o sinistro."
Resultado: a empresa paga os R$ 320 mil de resgate do próprio caixa (ou tenta reconstruir tudo do zero, o que pode levar meses). Durante a reconstrução, fica 12 dias sem operar. Prejuízo adicional estimado em R$ 580 mil de vendas perdidas. Total: R$ 900 mil de prejuízo não segurado.
Cenário B: Com Seguro Cyber standalone
A empresa aciona o Cyber. Em 2 horas, a seguradora conecta a empresa com uma equipe especializada em resposta a incidentes. Perícia forense começa imediatamente para entender a extensão do ataque. A seguradora cobre:
Total de custos: R$ 812 mil. Pagos pela seguradora. Desembolso da empresa: zero (ou apenas a franquia, que geralmente é de 10% do sinistro).
Vê a diferença brutal?
Alerta de segurança importante: O pagamento de resgate em casos de ransomware é uma decisão complexa que depende da regulação da seguradora, da legislação vigente e da análise do caso concreto. Nunca é uma garantia absoluta de solução, e em alguns países há questões legais envolvendo financiamento de atividades criminosas. Mas pelo menos no Cyber existe essa possibilidade — na extensão LGPD, nem se discute.
Vamos ser justos: nem toda empresa precisa de um Cyber robusto desde o dia um.
A extensão LGPD no RC Geral pode fazer sentido como primeiro passo para:
Empresas muito pequenas com baixíssima dependência digital: Se você tem um pequeno comércio físico, usa computador só pra emitir nota fiscal, não guarda muitos dados de clientes, não vende online — a extensão LGPD pode ser suficiente no curto prazo. O risco cibernético existe, mas é proporcionalmente menor.
Orçamento muito limitado: Se a escolha for entre "ter extensão LGPD" ou "não ter nada", obviamente é melhor ter a extensão. Ela pelo menos cobre o risco de processos por vazamento, que é significativo.
Como ponte temporária: Você está crescendo, digitalizando, mas ainda não chegou no ponto de justificar um Cyber completo. A extensão serve como proteção temporária enquanto você se organiza.
Mas deixa eu ser bem claro: para empresas de Tecnologia, Saúde, E-commerce, Serviços Financeiros, ou qualquer negócio onde a operação depende criticamente de sistemas digitais, a extensão LGPD é insuficiente. Ponto final.
Se seus sistemas pararem e você perder dinheiro por hora, você precisa de Cyber dedicado. Se você guarda dados sensíveis de milhares de clientes, você precisa de Cyber dedicado. Se um ataque cibernético pode quebrar sua empresa, você precisa de Cyber dedicado.
A extensão é um band-aid. O Cyber é o hospital completo.
A verdade inconveniente é essa: a maioria das empresas brasileiras está subcoberta em riscos cibernéticos. E muitas delas nem sabem disso.
Elas olham pra apólice de RC Geral, veem escrito "extensão LGPD" e acham que estão protegidas. Até o dia que sofrem um ataque ransomware, ou seus sistemas param por uma invasão, ou um backup crítico é perdido — e descobrem que o seguro que pagaram não cobre nada daquilo.
Não estou dizendo que a extensão LGPD é inútil. Ela tem seu valor. Mas ela foi desenhada para um tipo específico de risco: processos de terceiros por vazamento de dados. E só.
O Seguro Cyber foi desenhado para o mundo real de 2026, onde hackers sequestram sistemas, onde ransomware paralisa empresas inteiras, onde a recuperação de um ataque pode custar centenas de milhares de reais, onde cada hora de sistema fora do ar significa receita perdida.
Se sua empresa depende de tecnologia — e convenhamos, em 2026, praticamente toda empresa depende — você precisa de um Cyber dedicado. Não como luxo. Como ferramenta de sobrevivência.
Porque um único ataque cibernético bem-sucedido pode:
E tudo isso pode acontecer mesmo que você pague religiosamente sua apólice de RC Geral com extensão LGPD. Porque essa apólice simplesmente não foi feita para lidar com esses riscos.
A pergunta não é mais "preciso de Cyber?". A pergunta é: "posso arriscar não ter?"
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