
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

Você passou meses pitchando. Foram dezenas de reuniões, incontáveis planilhas, simulações de valuation, negociações sobre equity. Finalmente, o fundo de Venture Capital disse sim. O Term Sheet chegou. Aquele documento que simboliza que seu sonho está prestes a receber combustível de verdade.
Você abre o PDF, passa pelos termos principais — valuation, diluição, direitos de voto — e quando chega nas cláusulas finais, nas "Conditions Precedent" (condições para fechar o deal), você se depara com algo inesperado:
"A companhia deve contratar uma apólice de Seguro D&O (Directors & Officers) com limite mínimo de R$ 2 milhões, cobrindo todos os membros do conselho, antes do primeiro desembolso."
E aí vem a pergunta que todo fundador faz: "Por que diabos eles estão exigindo um seguro caro para uma empresa que ainda nem dá lucro?"
A resposta é mais simples (e mais importante) do que parece: o investidor quer proteger o dinheiro dele e o patrimônio pessoal dele. E se você quer dinheiro de fundo sério, precisa entender que o Seguro D&O não é frescura — é um pré-requisito de governança corporativa que separa startups amadoras de negócios investíveis.
Neste artigo, você vai entender por que investidores profissionais fazem dessa exigência um ponto inegociável, quais os riscos específicos que startups enfrentam, quanto custa contratar essa proteção e como não deixar que isso atrase seu closing.
Vamos começar pelo básico: o que muda quando um fundo de Venture Capital investe na sua startup?
Quando um fundo faz um aporte relevante — especialmente em rodadas Series A ou superiores —, uma das condições é que ele indica alguém para fazer parte do Conselho de Administração (Board of Directors) da sua empresa.
Pode ser um sócio do fundo, um advisor experiente ou um executivo de portfólio. Essa pessoa vai acompanhar de perto as decisões estratégicas, aprovar orçamentos, avaliar contratações de C-Level e ter poder de veto em temas críticos.
Até aqui, tudo normal. O problema é o que vem junto com esse assento.
Ao aceitar uma cadeira no conselho da sua startup, aquela pessoa — vamos chamá-la de conselheiro — passa a ter responsabilidade legal pelos atos de gestão da empresa. E no Brasil, isso não é só teoria. É prática judicial cotidiana.
Se a startup:
Os credores podem (e costumam) pedir a desconsideração da personalidade jurídica. Na prática, isso significa que o juiz autoriza ir atrás dos bens pessoais dos sócios, diretores e — atenção — conselheiros.
Sim, o CPF daquele investidor que indicou alguém para o board pode ser atingido. A conta bancária dele pode ser bloqueada via Bacenjud. O apartamento dele pode entrar na mira de uma penhora.
Agora pense pela perspectiva do investidor: ele vai colocar milhões de reais na sua startup, que opera em mercado volátil, com runway limitado, cultura de crescimento agressivo e alto risco de falência nos próximos 3-5 anos. E ainda por cima vai expor o patrimônio pessoal dele (ou de alguém do fundo) sem nenhuma proteção?
Claro que não.
O Seguro D&O é a blindagem que torna esse risco aceitável. Com a apólice ativa, se algum processo vier, o conselheiro indicado pelo fundo terá:
Sem D&O, muitos fundos simplesmente não investem. E os que investem, exigem cláusulas muito mais restritivas de governança e controle.
Startups não são empresas tradicionais. E os riscos que elas enfrentam são proporcionalmente maiores e mais imprevisíveis.
A mentalidade de startup é de velocidade. Lançar rápido, testar, pivotar, crescer antes do cash acabar. Mas essa agilidade tem um preço: decisões são tomadas com informações incompletas, processos são improvisados, compliance fica para depois.
E é justamente nesse ambiente de crescimento acelerado que os riscos de gestão explodem.
1. Trabalhista: A Maior Dor de Cabeça
Startups brasileiras adoram contratar via PJ (Pessoa Jurídica) para evitar os custos de CLT. O problema é que a Justiça do Trabalho não compra essa história. Se ficar caracterizado vínculo empregatício — e quase sempre fica —, a startup pode ser condenada a pagar todos os direitos trabalhistas retroativos.
E quem assinou os contratos? O fundador. Quem aprovou a política de contratação? O conselho. E quando a startup não tem caixa para pagar a condenação? O juiz vai nos CPFs.
Outros problemas comuns:
2. Tributário: Crescimento Rápido = Confusão Fiscal
Uma startup fatura R$ 200 mil/mês no primeiro semestre. No segundo semestre, fecha uma rodada, contrata vendedores e pula para R$ 2 milhões/mês. Parabéns, você está crescendo! Mas você atualizou o regime tributário? Migrou do Simples para o Lucro Presumido no momento certo?
Crescimento rápido gera desenquadramento fiscal, recolhimentos incorretos, autuações da Receita. E quando a Receita autua, ela não vai só na empresa. Vai nos responsáveis tributários: diretores e conselheiros.
3. Propriedade Intelectual: Batalhas pelo Código
Startups de tech vivem disso: código, algoritmos, designs, marcas. E disputas de IP são extremamente comuns:
Esses processos costumam mirar direto nos fundadores e no board.
4. Falência: O Fantasma do Runway
A estatística é brutal: 9 em cada 10 startups morrem. E quando morrem, geralmente morrem devendo. Fornecedores não pagos, funcionários com salários atrasados, impostos em aberto, credores furiosos.
E quando a startup vai para recuperação judicial ou falência, todos os credores vão tentar recuperar seus créditos. E uma das estratégias mais comuns é responsabilizar os sócios e administradores pessoalmente, alegando má gestão.
Se você é fundador ou conselheiro de uma startup em dificuldades financeiras, o D&O é sua última linha de defesa.
Aqui vem a objeção clássica do fundador: "Tudo bem, entendi a importância. Mas minha startup mal tem receita recorrente. Como vou pagar um seguro caro?"
Muita gente acha que Seguro D&O é só para grandes corporações, com prêmios de centenas de milhares de reais. Isso não é verdade.
Seguradoras já perceberam que startups são um mercado enorme e criaram produtos específicos para esse perfil: empresas jovens, de alto crescimento, sem histórico longo de sinistros, mas com necessidade real de proteção.
Para startups em fase inicial, com faturamento ainda modesto, o custo de uma apólice de D&O fica entre R$ 5 mil e R$ 15 mil por ano. Sim, por ano. É menos do que você paga de AWS em dois meses.
E considerando que esse seguro pode proteger o patrimônio de todos os fundadores e do investidor, é um dos melhores investimentos em proteção que você pode fazer.
O limite de cobertura varia de acordo com o estágio da startup e a exigência do investidor:
Seed / Pre-Series A:
Series A:
Series B+:
O investidor geralmente especifica o limite mínimo aceitável no Term Sheet. E esse valor costuma ser proporcional ao tamanho do aporte.
Se você está levantando capital para uma startup de tecnologia, provavelmente vai ouvir falar não só de D&O, mas também de Tech E&O. E vai ficar confuso sobre qual é qual.
Vamos esclarecer de uma vez:
Se você está construindo um SaaS, marketplace, fintech ou qualquer produto digital, a recomendação é: tenha os dois.
E aqui vai uma dica valiosa: muitas seguradoras já oferecem o "Combo Tech" — um pacote que inclui D&O + Tech E&O + Cyber Insurance (proteção contra ataques hackers e vazamentos) com desconto significativo em relação à contratação separada.
Para uma startup que está captando, esse combo é quase obrigatório. É parte da infraestrutura de risco, assim como ter um bom contador e um advogado corporativo.
Aqui entra um conceito técnico que todo fundador e investidor devem conhecer: a cobertura Side A, também chamada de DIC (Difference in Conditions).
Apólices de D&O tradicionais têm três camadas de cobertura:
A Side A é a mais importante para startups. Por quê?
Imagine que sua startup está em dificuldades financeiras. O caixa secou. A empresa não consegue nem pagar a franquia do seguro. Nesse momento, se vier um processo contra você como fundador ou contra o conselheiro indicado pelo fundo, quem paga a defesa?
Se a apólice não tiver Side A robusta, a resposta é: ninguém. Você vai ter que tirar do próprio bolso.
Mas se a apólice tiver cobertura Side A, a seguradora paga diretamente ao segurado, sem depender de reembolso da empresa. É uma proteção "pura" do patrimônio pessoal do executivo, que funciona justamente quando a empresa não pode ajudar.
Fundos de VC sabem que a maioria das startups do portfólio vai quebrar ou passar por momentos críticos de caixa. E é justamente nesses momentos que os riscos de processos aumentam.
Por isso, investidores experientes não aceitam qualquer D&O. Eles querem confirmar que a apólice tem Side A adequada, com sublimite específico e condições claras de quando ela é acionada.
Se o seu corretor não souber explicar a diferença entre Side A, B e C, procure outro corretor.
Depois de meses negociando sua rodada de investimento, seria uma tragédia deixar o deal cair por causa de uma exigência de seguro que você não entendeu ou não priorizou.
O Seguro D&O não é uma imposição aleatória do investidor. É um sinal de maturidade e governança corporativa. Startups que têm essa proteção estruturada demonstram que:
E mais: ter o D&O ativo facilita futuras rodadas, atrai melhores conselheiros e acelera processos de due diligence. É um investimento que se paga em credibilidade.
Um erro comum: deixar para contratar o D&O só depois que o investidor colocou como condição. Aí você descobre que o processo de subscrição leva 2-3 semanas, a seguradora pede documentos que você não tem organizados, e o closing fica travado.
O ideal é começar a conversa sobre D&O assim que você entrar em negociações sérias com investidores. Peça cotações paralelas, entenda os requisitos, organize a documentação. Assim, quando o Term Sheet vier com a exigência, você só precisa apertar o botão.
Quer entender em profundidade o que essa apólice cobre exatamente — advogados, bloqueio de bens, custos de defesa? Leia nosso Guia Completo de Seguro D&O e descubra como essa proteção funciona na prática.
Seu investidor exigiu Seguro D&O para liberar o aporte e você precisa resolver isso rápido para não atrasar o closing?
A Lifebis é especialista em startups e empresas de tecnologia. Entendemos os prazos apertados de uma rodada de investimento e trabalhamos para emitir sua apólice em tempo recorde — sem comprometer a qualidade da cobertura.
Já ajudamos dezenas de startups a estruturar D&O, Tech E&O e Cyber Insurance para satisfazer as exigências de fundos como Sequoia, Kaszek, Monashees e outros.
Entre em contato com nossos especialistas e garanta que seu seguro não vai ser o gargalo entre você e o cheque do investidor.
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