
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

O Seguro E&O (Errors and Omissions), também conhecido como RC Profissional para TI, é a apólice desenhada para cobrir prejuízos financeiros causados a terceiros decorrentes de falhas na prestação do serviço tecnológico. Isso inclui erros de código, bugs críticos que impactam a operação do cliente, atrasos na entrega de projetos e descumprimento de acordos de nível de serviço (SLA).
Na prática, quando um bug no seu software causa paralisação no e-commerce do cliente durante a Black Friday, ou quando um atraso na implementação de um sistema gera perdas financeiras mensuráveis, o Seguro E&O entra em ação. Ele cobre tanto a defesa jurídica contra processos quanto o pagamento de indenizações dentro dos limites contratados. Para empresas de tecnologia, essa proteção é tão essencial quanto o próprio código que desenvolvem.
Um simples erro no código pode paralisar a operação do seu cliente e gerar processos milionários. É exatamente contra esse cenário que o E&O foi criado.
Essa é uma das dúvidas mais frequentes entre gestores de empresas de tecnologia — e a resposta revela uma distinção técnica fundamental. O Seguro de Responsabilidade Civil Geral (RC Geral) foi desenhado para cobrir danos físicos, corporais e materiais. Pense em situações como um cliente que escorrega no piso molhado da sua empresa, ou um equipamento seu que causa um incêndio nas instalações do cliente.
No universo da tecnologia, entretanto, os danos raramente são físicos. Eles são puramente financeiros: lucro cessante, perda de receita, custos de retrabalho, danos à reputação e multas contratuais. Esses prejuízos intangíveis simplesmente não entram no escopo de um seguro empresarial tradicional.
Exemplo prático: Uma software house desenvolve um sistema de ERP customizado para um varejo online. Durante a Black Friday, o sistema apresenta uma falha crítica que impede o processamento de pedidos por seis horas. O cliente deixa de faturar R$ 800 mil e aciona a empresa de TI judicialmente, exigindo reparação pelos lucros cessantes e custos com atendimento ao consumidor.
Nesse cenário, o Seguro RC Geral não oferece cobertura — não houve dano físico ou corporal. É aqui que o Seguro E&O se torna indispensável: ele foi criado especificamente para proteger prestadores de serviços profissionais (incluindo desenvolvedores, consultorias de TI e empresas de software) contra prejuízos financeiros causados por erros, negligência ou omissões no exercício de suas atividades.
A apólice de E&O para empresas de TI oferece proteção abrangente contra os principais riscos operacionais do setor:
Falhas de Código e Bugs Críticos: Erros não intencionais na programação que causam mau funcionamento de sistemas, perda de dados ou interrupção de serviços. Isso inclui bugs que passaram despercebidos nos testes de qualidade e geraram prejuízos reais ao cliente após o deploy.
Quebra de Contrato e Descumprimento de SLA: Atrasos na entrega de projetos que resultam em perdas financeiras para o cliente, descumprimento de acordos de nível de serviço (tempo de resposta, disponibilidade, performance) e falhas em atender especificações técnicas acordadas contratualmente.
Negligência Profissional e Má Assessoria: Recomendações técnicas inadequadas, escolhas de arquitetura de software que se mostraram ineficientes ou orientações que levaram o cliente a tomar decisões prejudiciais baseadas em sua consultoria.
Violação de Propriedade Intelectual: Uso acidental de código, bibliotecas, assets gráficos ou componentes protegidos por direitos autorais ou patentes de terceiros, desde que não tenha sido intencional.
Defesa Jurídica Especializada: Cobertura de honorários advocatícios, custos com peritos técnicos, assistentes judiciais e todas as despesas processuais necessárias para defender sua empresa em processos cíveis relacionados à prestação de serviços.
Acordos Extrajudiciais: Negociações de settlement que podem evitar exposição desnecessária, desgaste de relacionamento com clientes e custos prolongados de litígio, sempre mediante aprovação da seguradora.
Vale ressaltar que a cobertura se aplica mesmo quando sua empresa agiu de boa-fé. O E&O reconhece que erros genuínos podem acontecer no desenvolvimento de software, e que esses erros não devem comprometer a existência da empresa.
Esta é uma confusão extremamente comum no mercado tech, e entender a distinção é crucial para estruturar uma proteção adequada. Embora ambos os seguros sejam essenciais para empresas de tecnologia, eles cobrem riscos completamente diferentes:
A regra prática: O E&O protege você dos prejuízos que você causa aos seus clientes por falhas profissionais. O Seguro Cyber protege você de ataques maliciosos externos que comprometem sua infraestrutura e dados.
Muitas vezes, um incidente pode ter componentes de ambos. Por exemplo: um vazamento de dados de clientes pode ocorrer por invasão hacker (Cyber) ou por falha de segurança no código desenvolvido pela sua empresa (E&O). A análise do sinistro determinará qual apólice será acionada.
Para empresas de tecnologia que prestam serviços a terceiros, a recomendação técnica é contratar ambas as coberturas de forma complementar. Elas não se sobrepõem — elas se completam, oferecendo proteção 360º contra os riscos digitais do século XXI.
Do ponto de vista jurídico, a necessidade do Seguro E&O está diretamente relacionada ao princípio da responsabilidade civil previsto no Código Civil Brasileiro. Os artigos 186 e 927 estabelecem que aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imperícia, violar direito e causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
No contexto de prestação de serviços de tecnologia, isso significa que sua empresa pode ser responsabilizada civilmente sempre que um erro profissional causar prejuízo mensurável ao cliente. A responsabilidade é objetiva quando o contrato assim estabelece, ou subjetiva quando é necessário comprovar culpa — mas em ambos os casos, a reparação financeira pode ser exigida judicialmente.
Atenção especial aos contratos B2B: Muitas empresas de tecnologia incluem cláusulas de limitação de responsabilidade em seus contratos de prestação de serviços, estabelecendo caps (limites) para indenizações ou excluindo determinados tipos de danos (como lucros cessantes). Embora essas cláusulas ofereçam alguma proteção, elas nem sempre são reconhecidas integralmente pelos tribunais, especialmente quando há comprovação de negligência grave.
O Seguro E&O deve ser estruturado levando em consideração os limites contratuais que você estabelece com seus clientes. Se seus contratos limitam a responsabilidade a até R$ 500 mil, não faz sentido contratar uma apólice com limite máximo de indenização (LMI) de R$ 5 milhões — e vice-versa. O ideal é que o limite da apólice seja compatível ou superior ao risco real de exposição da empresa.
Outro ponto relevante: muitos contratos corporativos de fornecimento de software ou serviços de TI exigem explicitamente que o fornecedor mantenha uma apólice de E&O ativa. Grandes empresas e órgãos públicos frequentemente estabelecem isso como pré-requisito para assinatura de contratos de alto valor. Ter o seguro, portanto, não é apenas proteção — é também habilitação comercial.
Para empresas de tecnologia, o Seguro E&O não é um "luxo" ou uma despesa acessória — é uma ferramenta crítica de continuidade de negócios. Um único processo judicial bem-sucedido pode consumir todo o capital de giro de uma PME de software, forçando o fechamento de operações ou a venda de ativos em condições desfavoráveis.
Considere o cenário: um bug crítico em produção causa prejuízo de R$ 1,2 milhão ao seu cliente. Ele processa sua empresa. Mesmo que você vença o processo (o que pode levar anos), os custos com advogados especializados, perícia técnica e tempo dedicado à defesa podem facilmente ultrapassar R$ 200 mil. Se você perder, terá que pagar a indenização integral — e possivelmente ainda arcar com os custos do processo.
Com o Seguro E&O, todos esses custos são absorvidos pela seguradora, permitindo que sua empresa continue operando normalmente enquanto a situação é resolvida. Mais do que proteção financeira, o E&O oferece tranquilidade operacional.
A recomendação estratégica para empresas de tecnologia é a análise combinada de coberturas: E&O para riscos profissionais + Cyber para riscos cibernéticos + RC Geral para riscos físicos tradicionais. Essa tríade constitui uma proteção verdadeiramente abrangente contra os riscos multidimensionais do setor tech.
Não se trata de pessimismo — trata-se de maturidade empresarial. As empresas mais bem-sucedidas do Vale do Silício e do ecossistema tech global mantêm essas coberturas como parte de sua governança corporativa. Não porque planejam falhar, mas porque entendem que em tecnologia, riscos sempre existem — e podem ser gerenciados de forma inteligente.
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