
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

Você é gestor de RH e está pensando em migrar para cartões de benefícios flexíveis com bandeira Visa ou Mastercard. Mas tem um medo que não te deixa dormir:
"Se eu der um cartão de crédito aberto para o funcionário, ele vai gastar o dinheiro do almoço na balada. Ou pior: vai comprar bebida alcoólica no mercado com o vale-alimentação. Como eu controlo isso?"
Se você tem esse receio, você não está sozinho. É a preocupação número um de 80% dos RHs que consideram abandonar os vales tradicionais de arranjo fechado.
Mas aqui está a boa notícia: existe uma tecnologia invisível que impede automaticamente esse tipo de desvio. Ela se chama MCC (Merchant Category Code), e funciona como um guarda de trânsito digital que direciona cada centavo para o lugar certo.
Neste guia técnico completo, vamos destrinchar exatamente como funciona essa "mágica" que garante que o vale-alimentação seja usado só em supermercados, o vale-refeição só em restaurantes, e assim por diante — sem nenhuma intervenção manual sua.
Prepare-se para entender a tecnologia que torna os cartões flexíveis mais seguros do que os antigos tickets de papel.
Vamos começar pela definição técnica e depois traduzir para o português claro.
MCC significa Merchant Category Code (Código de Categoria do Comerciante). É um número de quatro dígitos que identifica o tipo de negócio ou serviço que um estabelecimento comercial oferece.
Esses códigos foram padronizados pela ISO 18245 (International Organization for Standardization) e são usados globalmente por todas as redes de cartão: Visa, Mastercard, Elo, American Express e Discover.
Quando um estabelecimento comercial — seja uma padaria, um posto de gasolina ou um restaurante — quer aceitar cartões de crédito e débito, ele precisa se credenciar junto a uma adquirente (Stone, Cielo, Rede, GetNet, PagSeguro, etc.).
Durante esse processo de credenciamento, o estabelecimento recebe um MCC que define sua atividade principal baseada no volume de vendas em moeda local.
Esse código fica associado à maquininha de cartão daquele estabelecimento e é transmitido automaticamente em cada transação.
Vamos aos códigos mais comuns que você precisa conhecer:
MCC 5411 - Supermercados e Mercearias: Qualquer estabelecimento cuja atividade principal é vender alimentos para preparar em casa. Inclui Carrefour, Pão de Açúcar, Extra, Dia, e mercadinhos de bairro.
MCC 5812 - Restaurantes: Estabelecimentos que servem refeições prontas para consumo imediato. Restaurantes por quilo, churrascarias, rodízios, bistrôs.
MCC 5814 - Fast Food: Redes de comida rápida como McDonald's, Burger King, Subway, KFC.
MCC 5541 - Postos de Combustível: Postos de gasolina e diesel, incluindo lojas de conveniência dentro dos postos.
MCC 5912 - Farmácias e Drogarias: Estabelecimentos que vendem medicamentos, produtos de higiene e saúde. Inclui Drogasil, Pacheco, Droga Raia, Pague Menos.
MCC 4121 - Táxis e Limousines: Apps como Uber, 99, Cabify caem nessa categoria quando identificados como transporte.
MCC 7832 - Cinemas: Salas de cinema e ingresso para filmes.
MCC 5942 - Livrarias: Lojas que vendem livros físicos e digitais, incluindo Livraria Cultura, Saraiva.
MCC 7991 - Academias e Clubes Esportivos: Academias de ginástica, pilates, crossfit, clubes de natação.
Existem centenas de MCCs diferentes. Visa e Mastercard mantêm manuais com listas completas atualizadas regularmente.
Agora que você entende o que é MCC, vamos ao que realmente importa: como ele impede gastos indevidos no cartão de benefícios.
Imagine que o cartão multibenefícios é um armário com várias gavetas separadas:
Cada gaveta tem regras específicas sobre onde pode ser usada, baseadas em MCCs permitidos.
Quando o colaborador passa o cartão em qualquer estabelecimento, acontece o seguinte processo técnico em frações de segundo:
Passo 1: Captura do MCC
A maquininha envia os dados da transação para a rede do cartão (Visa, Mastercard, Elo). Esses dados incluem:
Passo 2: Consulta ao sistema da operadora de benefícios
A rede do cartão consulta o sistema da operadora (Flash, Caju, Swile, iFood Benefícios, etc.) perguntando: "Este cartão tem saldo disponível para uma compra com MCC 5411?"
Passo 3: Verificação de categoria
O sistema da operadora faz três perguntas:
Passo 4: Aprovação ou negação
Se todas as respostas forem positivas: Transação APROVADA. O valor de R$ 85 é descontado da gaveta de Alimentação.
Se qualquer resposta for negativa: Transação NEGADA. O cartão não passa.
Colaborador com R$ 500 em Alimentação tenta comprar R$ 85 de compras no Pão de Açúcar (MCC 5411).
O colaborador sai do mercado com as compras. O saldo de Alimentação cai para R$ 415.
O mesmo colaborador tenta comprar uma camisa de R$ 120 em uma loja de departamentos (MCC 5651 - Lojas de Roupas).
A transação é recusada na hora. O colaborador não consegue comprar a camisa com o cartão de benefícios.
Colaborador tem R$ 500 em Alimentação mas R$ 0 em Refeição. Tenta almoçar em um restaurante (MCC 5812) pagando R$ 45.
O sistema verifica se há saldo em Refeição. Como está zerado, nega a transação. O colaborador não consegue usar o saldo de Alimentação para pagar o restaurante.
Não existe "jeitinho". Não existe forma de burlar. O sistema faz essas verificações em menos de 2 segundos, antes mesmo da transação ser finalizada.
É como um semáforo digital que só abre o sinal verde quando todos os critérios são atendidos.
Agora vamos conectar a tecnologia com a lei.
O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) foi criado pela Lei 6.321/1976 com um objetivo claro: garantir que trabalhadores tenham acesso à alimentação adequada e nutritiva.
Em troca de oferecer esse benefício, as empresas ganham incentivos fiscais: não pagam INSS nem FGTS sobre os valores de vale-alimentação e vale-refeição.
Mas essa isenção tem uma condição não-negociável: os valores precisam ser usados exclusivamente para fins alimentares.
Se a Receita Federal descobrir que uma empresa permite (ou facilita) o uso desses valores para outras finalidades, a empresa perde todos os incentivos fiscais retroativamente e ainda enfrenta multas pesadas.
O MCC é a trava tecnológica que garante esse compliance automaticamente.
Quando o sistema da operadora de benefícios é configurado corretamente:
Resultado: É tecnicamente impossível gastar o saldo protegido pelo PAT em estabelecimentos inadequados.
O colaborador não consegue comprar combustível com vale-alimentação mesmo que queira. O sistema simplesmente nega a transação antes dela acontecer.
A lei do PAT estabelece que a responsabilidade pelo uso correto dos benefícios é compartilhada entre:
Quando todas as partes fazem sua parte, o compliance é garantido automaticamente pela tecnologia.
Agora vamos a um problema real e frustrante: quando o cartão é recusado mesmo tendo saldo e mesmo estando no estabelecimento "certo".
Colaborador vai almoçar em um restaurante pequeno de bairro. Tem R$ 300 em Refeição. Faz o pedido, come, e na hora de pagar o cartão é recusado.
Ele liga para o RH reclamando. O RH liga para a operadora. A operadora diz que está tudo certo com o cartão e o saldo.
O que aconteceu?
O problema não está no cartão. Está no cadastro do estabelecimento junto à adquirente.
Quando aquele restaurante pequeno se credenciou para aceitar cartões, o dono (ou o vendedor da maquininha) pode ter escolhido o MCC errado por diversos motivos:
Motivo 1: Erro genuíno: O dono não entendeu direito qual MCC escolher e marcou "Serviços Gerais" ou "Conveniência" em vez de "Restaurante".
Motivo 2: Tentativa de pagar menos taxa: Diferentes MCCs têm taxas de intercâmbio diferentes. Alguns estabelecimentos tentam se cadastrar com MCCs de categorias que pagam taxas menores.
Por exemplo: MCC de "Utilidades Públicas" tem taxa mais baixa que MCC de "Restaurante". O dono tenta economizar cadastrando errado.
Motivo 3: Negócio misto mal configurado: Uma padaria que vende pão (MCC de Alimentação) mas também serve almoço (MCC de Refeição) pode estar cadastrada apenas com um dos dois.
Quando o colaborador tenta pagar:
O sistema está fazendo exatamente o que deve fazer: bloquear uma compra em um estabelecimento que não está cadastrado como restaurante.
Para o colaborador:Infelizmente, não há nada que você possa fazer na hora. O erro não é do seu cartão. Você precisará:
Para o estabelecimento: O dono precisa entrar em contato com a adquirente (Stone, Cielo, etc.) e solicitar correção do MCC.
Isso pode levar alguns dias úteis para ser processado pelas redes de cartão.
Para o RH: Explique aos colaboradores que esse tipo de recusa não é culpa da operadora de benefícios nem do cartão. É um problema de cadastro do estabelecimento.
Encoraje o uso de estabelecimentos maiores e mais profissionalizados enquanto os pequenos vão se ajustando às novas regras do mercado.
Aqui está uma dúvida legítima que sempre surge: "E se o supermercado vende TV e eletrodomésticos? Posso comprar uma TV com vale-alimentação?"
Grandes redes de supermercados como Carrefour, Extra e Walmart vendem muito mais do que alimentos:
Mas esses supermercados geralmente têm MCC 5411 (Supermercados e Mercearias) cadastrado na maquininha principal.
O que acontece tecnicamente:
Quando você compra qualquer coisa no caixa principal desse supermercado, a transação vai com MCC 5411, independente do que está no carrinho.
O sistema do cartão vê: "MCC 5411 = Supermercado = Pode usar Alimentação".
A transação é aprovada.
Aqui entramos em uma zona cinza.
Tecnicamente: O sistema aprovou porque o MCC estava correto (supermercado).
Legalmente: O PAT foi criado para garantir alimentação. Comprar uma TV não é "alimentação".
Eticamente: É uso indevido do benefício, mesmo que o sistema não tenha bloqueado.
Algumas operadoras de benefícios mais sofisticadas tentam implementar controles adicionais:
Tentativa 1: Análise de valor: Transações muito altas em supermercados (ex: R$ 3.000 em uma única compra) podem acionar alertas para verificação manual.
Tentativa 2: Análise de padrão: Colaborador que sempre gasta R$ 200/mês em supermercado de repente gasta R$ 5.000? Pode acionar análise.
Tentativa 3: Revisão por amostragem: Algumas operadoras fazem auditorias aleatórias pedindo notas fiscais para verificar o que foi comprado.
Mas a realidade é: o MCC não consegue controlar item por item dentro do carrinho. Ele só identifica o tipo de estabelecimento.
A legislação do PAT estabelece que:
Se um colaborador deliberadamente compra eletrônicos com vale-alimentação sabendo que é errado, ele está cometendo uso indevido de benefício — o que pode ser caracterizado como falta grave e até fraude, dependendo da gravidade e recorrência.
Mas o MCC já garante o essencial: impedir que o vale-alimentação seja usado em lojas de eletrônicos, postos de gasolina, bares, farmácias, etc.
Vamos fazer uma comparação honesta entre os modelos.
Como funcionava:
Fragilidades:
Como funciona:
Vantagens:
O modelo com MCC é objetivamente mais seguro e transparente do que os modelos antigos.
A flexibilidade (poder usar em qualquer estabelecimento com a bandeira) NÃO significa falta de controle. Significa controle inteligente e automatizado.
"O colaborador pode trocar o MCC do estabelecimento para burlar?"
Não. O MCC é definido pelo estabelecimento junto à adquirente, não pelo cliente. O colaborador não tem acesso nem controle sobre isso.
"E se o colaborador for sócio de um estabelecimento e cadastrar com MCC errado de propósito?"
Isso seria fraude deliberada e configuraria crime. Além disso, as adquirentes fazem verificações de documentação (CNAE, licenças) que precisam estar alinhadas com o MCC solicitado.
"Quantos MCCs existem no total?"
Existem centenas. Visa e Mastercard mantêm listas oficiais com mais de 500 códigos diferentes, cobrindo praticamente todas as atividades comerciais imagináveis.
"O MCC pode mudar com o tempo?"
Sim. Se um estabelecimento muda seu modelo de negócio, pode solicitar mudança de MCC junto à adquirente. Mas o processo é formal e documentado.
"MCCs são iguais em Visa, Mastercard e Elo?"
A maioria é consistente, mas podem existir pequenas variações. As redes de cartão seguem a padronização ISO 18245, mas têm alguma flexibilidade para adaptar.
"Como o sistema sabe qual saldo usar se eu tenho Saldo Livre e Alimentação ao mesmo tempo?"
Depende da configuração da operadora. Geralmente há uma ordem de prioridade: primeiro tenta usar o saldo específico (Alimentação para supermercado), se não houver, pode tentar Saldo Livre (se configurado para aceitar aquele MCC).
O MCC não é só um "código técnico" obscuro. É a tecnologia fundamental que torna os cartões de benefícios flexíveis seguros, confiáveis e em conformidade com a lei.
MCC é um código de 4 dígitos que identifica o tipo de estabelecimento comercial (supermercado, restaurante, posto, farmácia, etc.).
Funciona como um semáforo digital que aprova ou nega transações em milissegundos baseado em regras pré-configuradas.
Garante compliance automático com o PAT impedindo que saldos protegidos sejam usados em estabelecimentos inadequados.
É mais seguro que tickets de papel porque oferece rastreabilidade total, bloqueio automatizado e impossibilidade de revenda.
Erros de MCC existem mas são responsabilidade do estabelecimento corrigir junto à adquirente, não do cartão ou do colaborador.
Se você ainda tem medo de migrar para cartões flexíveis com bandeira Visa/Mastercard por receio de "perder o controle", entenda:
Você não está perdendo controle. Você está ganhando controle automatizado, inteligente e à prova de falhas humanas.
O MCC trabalha 24 horas por dia, 7 dias por semana, bloqueando milhões de transações inadequadas antes mesmo delas acontecerem.
É tecnologia a favor do RH. É flexibilidade com segurança. É o melhor dos dois mundos.
Se você ainda não está 100% convencido de que a tecnologia de bloqueio por MCC é robusta e confiável, a melhor forma de dissipar dúvidas é ver funcionando na prática.
A Lifebis faz demonstrações técnicas ao vivo mostrando:
Você pode até tentar "burlar" o sistema durante a demo — vamos te mostrar por que não funciona.
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