Seguro de Estoque: Devo declarar pelo Preço de Custo ou de Venda?

Seguro de Estoque: Devo declarar pelo Preço de Custo ou de Venda?

Você está contratando ou renovando o seguro empresarial da sua loja, indústria ou centro de distribuição. O corretor ou o formulário online chega na pergunta inevitável: "Qual o valor em risco de Mercadorias em Estoque?"

Você olha para o seu inventário: 1.000 pares de sapatos que você comprou do fornecedor por R$ 50,00 cada um. Mas esses sapatos você vende na sua loja por R$ 100,00 o par. Seu estoque total, portanto, vale R$ 50.000 pelo custo de aquisição, mas representa R$ 100.000 em potencial de faturamento.

O impulso natural — e extremamente comum — é declarar R$ 100.000 para o seguro. Afinal, seu raciocínio parece lógico: "Se pegar fogo no estoque e eu perder essas mercadorias, perco não apenas o custo delas, mas também o lucro que eu faria vendendo. Logo, preciso segurar pelo preço de venda."

Esse raciocínio está errado, e o erro pode custar caro de duas formas: primeiro, você vai pagar o dobro do prêmio de seguro sem necessidade. Segundo, mesmo pagando esse prêmio inflado, você não receberá R$ 100.000 em caso de sinistro — receberá apenas os R$ 50.000 de custo de reposição.

Por quê? Porque existe uma regra fundamental que rege os seguros patrimoniais: o seguro serve para repor o bem ao estado anterior ao sinistro, não para gerar lucro. E o lucro que você deixou de ganhar é protegido em uma cobertura separada, não na cobertura de estoque.

A regra de ouro: Valor de Reposição (Custo)

Para entender corretamente como declarar o valor do seu estoque no seguro, você precisa compreender o conceito técnico de Valor de Reposição e como ele é aplicado em diferentes tipos de negócio.

A definição técnica

Para a cobertura de Danos Materiais — que inclui incêndio, roubo, vendaval e outros riscos físicos ao estoque — a indenização é sempre baseada no custo necessário para colocar uma mercadoria nova igual no lugar daquela que foi perdida.

Não é quanto você venderia a mercadoria. Não é quanto ela vale no balanço contábil. É simplesmente: quanto você gastaria hoje para repor aquele item exato no seu estoque?

Para comércio e varejo (revenda)

Se sua empresa compra produtos prontos e os revende (lojas, supermercados, distribuidoras), o valor de reposição é:

Valor da Nota Fiscal de compra do fornecedor + Frete + Impostos não recuperáveis

Exemplo prático: você compra camisetas por R$ 20,00 cada, paga R$ 2,00 de frete unitário e há R$ 1,00 de ICMS não recuperável embutido no preço. O valor de reposição é R$ 23,00 por camiseta, não os R$ 45,00 que você cobra do cliente final.

Se você tem 500 camisetas em estoque, deve declarar R$ 11.500 no seguro (500 × R$ 23), não R$ 22.500 (500 × R$ 45).

Para indústria (manufatura)

Se sua empresa fabrica produtos, a conta é um pouco mais complexa, pois você precisa calcular o custo de produção:

Matéria-prima: valor de compra dos insumos + frete + impostos não recuperáveis. Se você tem 10 toneladas de aço em estoque, declare pelo que custou adquirir e transportar esse aço.

Produtos em elaboração: matéria-prima já utilizada + custos diretos de produção até o estágio atual + mão de obra direta proporcional. Se uma peça está 50% fabricada, inclua 50% dos custos de transformação.

Produtos acabados: custo total de produção, incluindo matéria-prima, insumos, mão de obra direta, energia elétrica da produção, depreciação de máquinas. Mas não inclua margem de lucro, despesas administrativas, comerciais ou financeiras.

Exemplo: você fabrica móveis. Uma mesa pronta custou R$ 200 de madeira, R$ 80 de mão de obra direta, R$ 20 de verniz e parafusos, R$ 15 de energia. O custo de produção é R$ 315. Você vende por R$ 650. Deve declarar R$ 315 no seguro, não R$ 650.

Por que essa regra existe?

O fundamento é tanto técnico quanto ético. Se a seguradora pagasse o preço de venda, você estaria recebendo não apenas a reposição do bem, mas também o lucro — sem ter feito nenhum esforço de venda, sem risco de inadimplência do cliente, sem custo de marketing ou vendedor.

Na prática, você teria "vendido" seu estoque para a seguradora com garantia de pagamento e sem nenhum trabalho. Isso criaria um risco moral (moral hazard): haveria incentivo econômico para que sinistros acontecessem, o que destrói completamente o princípio do seguro.

Além disso, se todos segurassem pelo preço de venda, os prêmios de todo o mercado teriam que aumentar proporcionalmente, encarecendo o seguro para todos.

"Mas e o meu lucro? Eu perdi a venda!"

Esta é a objeção natural que surge quando você entende que o seguro de estoque paga apenas o custo de reposição: "Espera aí! Se pegar fogo no meu estoque de R$ 50.000 e eu receber só R$ 50.000, consegui repor as mercadorias, mas perdi os R$ 50.000 de margem que eu ganharia vendendo tudo. Onde fica minha proteção?"

É uma preocupação absolutamente legítima. E a boa notícia é que existe proteção para isso — só não é na cobertura de estoque.

A solução correta: Lucros Cessantes

O lucro que você deixou de ganhar por ter perdido o estoque é coberto pela garantia de Lucros Cessantes (ou Perda de Lucros). É uma cobertura separada, com cálculo próprio, que você contrata adicionalmente ao seguro patrimonial.

Funciona assim:

  1. Cobertura de Estoque: protege seu custo de reposição — você recupera o dinheiro necessário para comprar ou produzir mercadorias novas.
  2. Cobertura de Lucros Cessantes: protege sua margem de lucro e despesas fixas — você recebe uma indenização mensal baseada no faturamento que deixou de ter enquanto estava sem estoque para vender.

A estratégia perfeita de proteção

Para estar verdadeiramente protegido contra perda de estoque, você precisa de uma estrutura dupla:

Passo 1: Contrate a cobertura de Estoque pelo Preço de Custo (para conseguir repor fisicamente as mercadorias).

Passo 2: Contrate a cobertura de Lucros Cessantes dimensionada baseada no seu faturamento médio mensal e margem de lucro (para receber o resultado financeiro que você deixou de ter).

Exemplo completo:

Você tem R$ 200.000 em estoque (pelo custo). Pega fogo. Com a cobertura de estoque, você recebe R$ 200.000 e consegue repor todas as mercadorias em 30 dias. Mas durante esses 30 dias, sua loja ficou vazia e você não faturou os R$ 400.000 mensais habituais.

Com a cobertura de Lucros Cessantes calculada sobre seu faturamento mensal, você recebe uma indenização que compensa:

  • O lucro líquido que você teria obtido naquele mês (digamos, R$ 80.000)
  • As despesas fixas que você teve que pagar mesmo sem faturar (aluguel, salários, contas — digamos, R$ 60.000)

Total: você recebe R$ 140.000 de Lucros Cessantes + os R$ 200.000 de reposição de estoque = proteção completa.

Essa é a forma tecnicamente correta e financeiramente inteligente de se proteger. Não tente forçar a cobertura de estoque a fazer algo que ela não foi desenhada para fazer.

Exceção: Commodities e bens com cotação em bolsa

Como toda regra no mundo dos seguros, existe uma exceção importante que você precisa conhecer: produtos que são negociados em bolsa de valores ou mercadorias.

O caso especial das commodities

Se sua empresa trabalha com soja, milho, café, açúcar, ouro, prata, cobre, alumínio, petróleo ou qualquer outro produto com cotação pública em bolsa de mercadorias, a lógica de precificação muda completamente.

Para commodities, muitas seguradoras aceitam — e na verdade utilizam — o valor de mercado na data do sinistro como base de indenização, não necessariamente o custo histórico de aquisição.

Por quê? Porque essas mercadorias têm liquidez imediata e universal. Você pode vender uma tonelada de soja hoje pelo preço da bolsa sem nenhum esforço de comercialização. O "preço de venda" e o "preço de reposição" são essencialmente a mesma coisa, determinados objetivamente pelo mercado.

Como funciona na prática

Imagine que você é um produtor rural que colheu soja quando o preço estava a R$ 120,00 a saca. Você armazenou 10.000 sacas aguardando melhor momento para vender. O custo de produção foi R$ 80,00 por saca.

Três meses depois, acontece um incêndio no armazém que destrói todo o estoque. Mas nesse meio tempo, o preço da soja subiu para R$ 150,00 a saca por questões de mercado internacional.

Em uma apólice de commodities bem estruturada, você pode receber a indenização baseada nos R$ 150,00 (preço atual de reposição no mercado), não nos R$ 80,00 de custo de produção nem nos R$ 120,00 históricos.

Isso faz sentido porque, para repor aquelas 10.000 sacas no seu patrimônio, você teria que comprar no mercado ao preço atual de R$ 150,00.

Atenção aos detalhes

Se você trabalha com commodities, é fundamental que a apólice estabeleça claramente:

  • Qual bolsa será usada como referência de preço
  • Se usa cotação de abertura, fechamento ou média do dia do sinistro
  • Se há algum desconto por qualidade ou localização
  • Como serão tratadas flutuações cambiais (para commodities cotadas em dólar)

Essa é uma área técnica que exige experiência tanto do corretor quanto da seguradora. Não todas as seguradoras têm expertise nesse tipo de cobertura especializada.

Estoque sazonal: o perigo da média

Um dos erros mais comuns — e mais custosos — na contratação de seguro de estoque acontece com empresas que têm variação sazonal significativa no volume de mercadorias armazenadas.

O problema da sazonalidade

Você tem uma loja de brinquedos. Em março, seu estoque típico é de R$ 100.000 — apenas o necessário para vendas normais do mês. Mas em outubro, preparando-se para o Dia das Crianças e o Natal, você acumula estoque de R$ 1.000.000 (entre mercadorias já recebidas e encomendas em trânsito).

Se você segurar pela média simples do ano — digamos R$ 500.000 — está criando um problema duplo:

Se pegar fogo em março: você pagou prêmio sobre R$ 500.000, mas tinha apenas R$ 100.000 seguráveis. Pagou 5 vezes mais caro que o necessário por aquele mês.

Se pegar fogo em outubro: você tinha R$ 1.000.000 em estoque, mas segurou apenas R$ 500.000. A seguradora vai aplicar a temida Cláusula de Rateio. Você declarou metade do valor real, logo receberá metade do prejuízo. Um sinistro de R$ 600.000 renderá indenização de apenas R$ 300.000.

Soluções para sazonalidade

Existem três estratégias principais para lidar com estoque sazonal:

1. Declaração Mensal (Averbação)

Você contrata um limite máximo (digamos, R$ 1.200.000) e todo mês informa à seguradora qual o valor real de estoque que você tem naquele momento. O prêmio é ajustado mensalmente conforme o estoque declarado.

Vantagens: precisão máxima, você paga apenas pelo risco real de cada mês.

Desvantagens: exige disciplina de reportar mensalmente, pode ter custo administrativo.

2. Cláusula de Ajuste Sazonal

A apólice estabelece antecipadamente os meses de pico e o percentual de aumento automático.

Exemplo: "Cobertura base de R$ 300.000, com aumento automático de 200% nos meses de outubro, novembro e dezembro (totalizando R$ 900.000 nesses meses)."

Vantagens: automático, sem necessidade de averbação mensal, prêmio calculado de forma proporcional.

Desvantagens: menos flexível, se o pico for maior ou menor que o previsto pode haver sobre ou subdimensionamento.

3. Contratar pelo Pico e Aceitar Sobrecusto

Você simplesmente contrata o seguro pelo valor do pico (R$ 1.000.000) o ano todo.

Vantagens: simplicidade total, nunca corre risco de subdimensionamento.

Desvantagens: custo muito elevado, você paga durante 8 ou 9 meses por proteção que não está usando.

Qual escolher?

Para a maioria das empresas com sazonalidade clara e previsível (varejo de Natal, materiais escolares, Dia das Mães, Páscoa), a Cláusula de Ajuste Sazonal oferece o melhor equilíbrio entre custo, proteção e praticidade administrativa.

Para empresas com variação imprevisível ou muito volátil (importadores que recebem containers irregularmente, empresas com vendas B2B de grande porte), a Declaração Mensal garante precisão máxima.

Tabela resumo: como declarar seu estoque?

Para facilitar a visualização e garantir que você declare corretamente o valor do seu estoque, veja esta tabela comparativa:

Tipo de Empresa Base de Valor para o Seguro O que inclui?
Varejo / Comércio (Revenda) Preço de Custo (Reposição) Valor da NF de Compra + Frete + Impostos não recuperáveis
Indústria (Manufatura) Custo de Produção Matéria-prima + Insumos + Mão de Obra direta + Energia da produção (sem margem de lucro)
Commodities (Bolsa) Valor de Mercado Cotação na Bolsa de Mercadorias na data do sinistro
Lucro da Venda Lucros Cessantes Cobertura separada baseada em faturamento (não misture com estoque)
Estoque Sazonal Variável com Cláusula Específica Declaração mensal ou ajuste automático em meses de pico

Use esta tabela como referência na hora de preencher o formulário de contratação ou renovação do seu seguro. E sempre que tiver dúvida, prefira declarar um valor ligeiramente superior (dentro da realidade) a subdimensionar e correr risco de rateio.

Pague o preço justo, tenha a proteção certa

A tentação de inflar o valor do estoque declarando pelo preço de venda é compreensível — afinal, você quer proteção completa e intuitivamente sente que "vale mais". Mas essa intuição leva a um resultado duplo negativo: você paga mais caro por uma proteção que não receberá.

Declarar estoque pelo preço de venda é literalmente jogar dinheiro fora no prêmio do seguro. Você está pagando por uma indenização que nunca receberá, porque no momento do sinistro a seguradora vai aplicar a regra de valor de reposição de qualquer forma.

A estratégia inteligente é:

  1. Declare o estoque pelo custo real de reposição — economize no prêmio dessa cobertura
  2. Use a economia para contratar uma boa cobertura de Lucros Cessantes — proteja o lucro na cobertura correta
  3. Se tem sazonalidade, contrate cláusula de ajuste — evite o rateio nos meses de pico
  4. Mantenha inventário atualizado — tenha sempre números precisos para evitar problemas no sinistro

Essa estrutura garante proteção completa (reposição física + resultado financeiro) pelo menor custo possível. É a forma profissional e tecnicamente correta de segurar seu estoque.

Entendeu como calcular o estoque corretamente? Veja agora como evitar o rateio também na cobertura do prédio lendo sobre a Cláusula de Rateio no Seguro Empresarial.

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