
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

Um incêndio leva horas para ser controlado. Um vendaval destrói seu telhado em minutos. Mas você sabe quanto tempo leva para reconstruir tudo e voltar a operar? Em média, de 4 a 8 meses.
A pergunta que poucos empresários fazem é: sua empresa consegue ficar sem faturar durante esse período?
A maioria dos negócios não sobrevive. Segundo dados do setor de seguros, cerca de 40% das empresas que sofrem um sinistro grave fecham as portas nos dois anos seguintes — não por falta de seguro, mas porque a apólice só cobriu as paredes, e não o que realmente importa: a capacidade de continuar gerando receita.
O Seguro Patrimonial Empresarial (também chamado de Multirrisco ou Compreensivo) existe justamente para evitar esse cenário. Quando bem estruturado, ele protege não apenas o prédio e equipamentos, mas garante que sua operação continue viva mesmo durante a reconstrução.
Neste guia, vamos mostrar como montar uma apólice que realmente funciona quando você mais precisa — sem letras miúdas, rateios ocultos ou coberturas insuficientes.
O seguro patrimonial empresarial é uma proteção modular que cobre os bens físicos da sua empresa e, dependendo das coberturas contratadas, também protege sua receita durante interrupções forçadas.
Diferente do que muitos pensam, não existe "um" seguro patrimonial. Existe uma cobertura básica obrigatória (que explicaremos a seguir) e dezenas de coberturas adicionais que você escolhe conforme o perfil do seu negócio.
Muitos empresários contratam seguro pensando que "está tudo coberto", mas descobrem tarde demais que havia uma divisão crucial:
Prédio (Estrutura Física):
Conteúdo (Bens Operacionais):
Se você aluga o imóvel, geralmente só precisa segurar o conteúdo. Se é proprietário, provavelmente precisa de ambos. E atenção: cada um tem seu próprio valor segurado (Limite de Garantia).
Qualquer empresa com patrimônio físico ou operação presencial:
Mesmo empresas em coworking podem (e devem) segurar seus equipamentos e móveis próprios.
Toda apólice de seguro patrimonial começa com a cobertura básica I.R.E., sigla para:
Incêndio: Danos causados por fogo acidental ou iniciado por qualquer causa não intencional (curto-circuito, superaquecimento de máquinas, propagação de fogo de imóveis vizinhos).
Raio: Queda de raio dentro do terreno segurado, que danifique a estrutura ou equipamentos.
Explosão: De qualquer natureza — caldeiras, botijões de gás, tanques de combustível, e até explosões acidentais de produtos químicos.
Embora o incêndio seja a cobertura "estrela", estatisticamente não é o sinistro mais frequente. Danos elétricos, vendavais e destelhamentos são muito mais comuns no dia a dia das empresas brasileiras, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.
Por isso, a cobertura básica sozinha é insuficiente. O valor real de um seguro patrimonial está nas coberturas adicionais.
Aqui é onde você monta um seguro que realmente protege. As coberturas adicionais transformam uma apólice "genérica" em um escudo personalizado para os riscos do seu negócio.
O que cobre: Queima de máquinas, equipamentos eletrônicos, motores e transformadores causada por oscilações de tensão, curto-circuito, descargas elétricas ou indução.
Por que é essencial: No Brasil, a qualidade da rede elétrica é inconsistente. Uma sobretensão pode queimar servidores, centrais de ar-condicionado, painéis de controle industrial e equipamentos de produção. Sem essa cobertura, você arca com todo o prejuízo.
A realidade é que a maioria dos sinistros patrimoniais não vem de incêndios espetaculares — vem de uma queda de raio a 2 km de distância que gera uma sobretensão na rede, fritando o servidor que controla todo o seu ERP. Ou de um curto-circuito no quadro de distribuição que queima os motores de três máquinas industriais de uma só vez.
O custo de reposição de equipamentos eletrônicos é altíssimo. Um servidor empresarial pode custar R$ 50 mil. Uma central de ar-condicionado industrial, R$ 80 mil. Um painel CLP de automação, R$ 120 mil. E muitas vezes, quando um equipamento queima, ele leva outros junto na mesma rede elétrica.
Atenção ao sublimite: Muitas apólices limitam Danos Elétricos a 10% ou 20% do valor total segurado. Se você tem equipamentos eletrônicos de alto valor, negocie um sublimite específico adequado.
Para quem: Indústrias, data centers, escritórios com TI crítica, varejo com PDVs eletrônicos, clínicas com equipamentos médicos.
O que cobre: Destelhamentos, quebra de vidros, queda de estruturas e danos causados por ventos fortes ou pedras de gelo.
Por que é essencial: Vendavais são a causa número 1 de sinistros patrimoniais no Brasil. Um temporal forte pode arrancar telhas, destruir fachadas de vidro e alagar o interior do prédio. A reconstrução pode custar centenas de milhares de reais.
Entre setembro e março, as regiões Sul e Sudeste enfrentam temporais severos quase semanalmente. Um vendaval de 80 km/h já é suficiente para arrancar telhas metálicas e de fibrocimento. Acima de 100 km/h, até telhados de concreto podem sofrer danos estruturais.
O problema não é só o telhado em si — quando a chuva entra, ela destrói tudo: estoque, equipamentos, documentos, instalações elétricas. Uma empresa de logística no interior de São Paulo teve 40% do estoque de eletrônicos perdido após um destelhamento. O prejuízo: R$ 890 mil. O custo do telhado novo: R$ 120 mil. Se tivesse apenas cobertura básica (IRE), teria ficado no prejuízo de R$ 770 mil.
Granizo: Embora menos frequente, é devastador. Pedras de gelo do tamanho de bolas de tênis podem quebrar claraboias, telhas translúcidas, painéis solares e veículos estacionados no pátio (se tiver cobertura específica).
Atenção às franquias: Coberturas de vendaval costumam ter franquias mais altas (de 5% a 10% do valor do sinistro). Negocie na contratação.
Para quem: Todas as empresas, especialmente as localizadas em regiões com temporais frequentes (Sul, Sudeste, Centro-Oeste) ou com grandes áreas de telhado.
O que cobre: Subtração de bens mediante:
O que NÃO cobre: Furto simples (quando algo "desaparece" sem sinais de invasão).
Essa é uma das coberturas mais mal compreendidas. Muitos empresários acham que basta ter seguro patrimonial para estar coberto contra roubo. Não é automático — a cobertura precisa ser contratada explicitamente.
E há um detalhe crucial: precisa haver vestígio claro de crime. Se um notebook sumiu do escritório ou home office e ninguém sabe como, não há cobertura. Se a porta foi arrombada e há boletim de ocorrência, há cobertura.
Cuidado com sublimites por item: Muitas apólices limitam a indenização por equipamento individual. Exemplo: R$ 10 mil por computador, R$ 20 mil por máquina. Se você tem um equipamento de R$ 150 mil, negocie um sublimite específico para ele.
Exigências de proteção: Para contratar essa cobertura, a seguradora geralmente exige:
Para quem: Varejo com estoque de alto valor, indústrias com máquinas caras ou insumos valiosos, escritórios em regiões de alto índice de criminalidade, empresas com equipamentos portáteis de alto custo.
O que cobre: Danos que sua empresa causa involuntariamente a terceiros durante suas operações. Exemplos:
Por que é essencial: Processos de indenização podem custar muito mais do que os danos físicos ao seu próprio patrimônio. Uma única ação judicial por danos morais e materiais pode custar R$ 100 mil, R$ 500 mil ou mais, dependendo da gravidade.
E não estamos falando de casos raros. Uma loja de materiais de construção teve que pagar R$ 180 mil após uma cliente tropeçar em uma caixa deixada no corredor e sofrer lesões que a afastaram do trabalho por 4 meses. Um escritório em prédio comercial pagou R$ 95 mil ao inquilino de baixo após um vazamento de ar-condicionado destruir servidores.
Importante: RC Operacional cobre a operação normal do negócio. Se você fabrica produtos, precisa também de RC Produtos (cobertura separada). Se você presta serviços técnicos/profissionais, pode precisar de Erro e Omissões (E&O).
Atenção ao limite: Avalie bem o limite de RC. Para pequenos comércios, R$ 200 mil pode ser suficiente. Para indústrias ou empresas com grande fluxo de pessoas, considere R$ 500 mil a R$ 2 milhões.
Para quem: Empresas com fluxo de clientes (varejo, restaurantes, clínicas, academias, hotéis), indústrias que possam causar impacto ambiental, empresas em prédios comerciais compartilhados.
O que cobre: Substituição de vidraças, espelhos, tampos de mármore/granito, fachadas de vidro, claraboias, divisórias de vidro temperado.
Pode parecer uma cobertura "de luxo", mas para muitos negócios é essencial. Uma vitrine de loja de roupas de alto padrão pode custar R$ 40 mil para substituir (vidro temperado, grande dimensão, instalação especializada). Uma fachada de vidro de edifício comercial pode passar de R$ 200 mil.
Situações cobertas:
O que geralmente NÃO cobre:
Dica importante: Se você tem fachada de vidro ou grandes áreas envidraçadas, essa cobertura é quase obrigatória. A reposição de vidros especiais (temperados, laminados, insulados) é extremamente cara e tem prazo de fabricação longo.
Para quem: Lojas com vitrines de alto padrão, edifícios comerciais modernos com fachadas de vidro, clínicas e consultórios com divisórias de vidro, restaurantes e cafés com áreas envidraçadas.
O que cobre: Danos causados por acúmulo de água proveniente de chuvas intensas, transbordamento de rios, córregos e galerias pluviais, ou rompimento de adutoras e redes públicas.
Esta é uma cobertura regional: essencial em algumas áreas, desnecessária em outras. Mas se sua empresa está em zona de risco, não ter essa cobertura pode significar perda total.
Diferença importante:
Ambos são cobertos pela mesma cláusula, mas a seguradora avalia o risco de forma diferente. Empresas próximas a rios têm prêmio mais alto.
Por que é devastador: Água suja destrói tudo. Estoque, equipamentos eletrônicos, documentos, instalações elétricas, pisos, paredes (que precisam ser abertas para secar). A contaminação por esgoto é comum em alagamentos urbanos, exigindo desinfecção completa.
Caso real: Uma distribuidora de alimentos em São Paulo teve o galpão invadido por 1,5m de água durante uma chuva forte. Perda total de R$ 2,3 milhões em estoque refrigerado + R$ 400 mil em danos estruturais. Sem cobertura de alagamento, teria fechado.
Atenção: Muitas seguradoras exigem que o imóvel esteja a uma certa altura em relação ao nível da rua (ex: 30 cm acima) para aceitar o risco. Se você está em área muito vulnerável, pode haver recusa ou franquia muito alta.
Para quem: Empresas em áreas de várzea, próximas a rios ou córregos, em regiões com histórico de enchentes, subsolos e garagens, galpões em zonas industriais com drenagem precária.
Aqui está a cobertura que separa uma apólice amadora de uma estratégica.
Imagine que sua fábrica sofre um incêndio. O seguro paga a reconstrução do prédio e a reposição das máquinas. Maravilha, certo?
Errado.
Durante os 6 a 8 meses de obras, você continua tendo que pagar:
E o pior: você não está faturando nada.
A maioria das empresas não tem caixa para aguentar isso. E é por isso que tantas fecham após um sinistro grave, mesmo tendo seguro.
Essa cobertura funciona como um "salário" para a empresa durante a paralisação. Ela cobre:
Como funciona: Você contrata um período de indenização (geralmente 12 ou 24 meses) e um valor mensal que reflita seu faturamento médio menos os custos variáveis.
Exemplo prático:
Você contrataria R$ 200 mil/mês por 12 meses = Limite de R$ 2,4 milhões.
Se você só pudesse escolher uma cobertura adicional, essa seria a mais importante. Sem Lucros Cessantes, até empresas lucrativas podem quebrar após um sinistro.
Aqui está a armadilha que mais pega empresários: a Cláusula de Rateio Proporcional.
Você tem um prédio que vale R$ 1 milhão para reconstruir. Para economizar no prêmio, contrata um seguro de apenas R$ 500 mil (50% do valor real).
Aí acontece um sinistro parcial: um incêndio destrói R$ 200 mil em equipamentos.
Você pensa: "Beleza, R$ 200 mil está dentro do meu limite de R$ 500 mil. Vou receber tudo."
Não vai.
A seguradora aplica o rateio: Como você segurou apenas 50% do valor real, ela entende que você assumiu os outros 50% do risco. Logo, ela paga apenas 50% do sinistro: R$ 100 mil.
Você fica no prejuízo de R$ 100 mil — mesmo tendo seguro e pagando o prêmio.
Indenização = (Valor Segurado / Valor em Risco Real) × Prejuízo
Exemplo:
Indenização = (R$ 500 mil / R$ 1 milhão) × R$ 200 mil = R$ 100 mil
1. Contratar pelo Valor de Reposição Correto
O valor segurado deve refletir quanto custa reconstruir/repor tudo hoje, considerando:
Não use o valor do IPTU, valor de venda do imóvel ou valor contábil depreciado.
2. Contratar Cláusula de Primeiro Risco Absoluto (PRA)
Nessa modalidade, não há rateio. Se você contrata R$ 500 mil, a seguradora paga até R$ 500 mil de qualquer sinistro, independentemente do valor total dos bens.
É mais cara, mas elimina o risco de co-participação forçada.
3. Revisar Anualmente
Inflação, novos equipamentos, reformas — tudo muda o valor em risco. Faça uma reavaliação todo ano.
Para evitar surpresas, é importante saber o que geralmente fica de fora:
Por quê: O seguro cobre eventos súbitos e acidentais, não deterioração previsível. Se o telhado estava visivelmente deteriorado há meses e você não fez nada, a seguradora pode alegar negligência e recusar o sinistro.
Como evitar problemas: Mantenha um programa básico de manutenção preventiva e registros (fotos, ordens de serviço). Em caso de sinistro, isso prova que você cuidava do imóvel adequadamente.
"Sumiu um notebook do escritório e ninguém viu."
Se não há sinais de arrombamento, escalada ou violência, geralmente não há cobertura. A lógica: sem vestígio de crime, não há como a seguradora diferenciar um furto real de uma fraude ou simples extravio.
Situações comuns sem cobertura:
Como se proteger: Investir em controle de acesso, câmeras, registro de entrada/saída de bens, e políticas claras de responsabilidade por equipamentos.
Atenção especial: Muitos empresários esquecem de declarar equipamentos de alto valor individual (uma máquina CNC de R$ 800 mil, por exemplo). Se não estiver na apólice com valor individual destacado, pode haver problema na indenização.
Eventos de comoção civil (protestos violentos, saques), greves com destruição de propriedade, atos de terrorismo ou guerra estão excluídos na maioria das apólices padrão.
Exceção: Algumas seguradoras oferecem cobertura adicional para "Tumultos, Greves e Lock-out" (TGL), especialmente útil para empresas em regiões com histórico de protestos ou próximas a áreas conflituosas.
Se você, seu sócio ou funcionários com acesso privilegiado causarem danos intencionais (atear fogo no estabelecimento, simular um roubo, destruir equipamentos propositalmente para acionar o seguro), a seguradora não paga — e ainda pode entrar com ação penal por fraude.
Investigação: Sinistros suspeitos são investigados rigorosamente. Seguradora contrata peritos, cruza dados, analisa histórico financeiro da empresa. Fraude em seguro é crime previsto no Código Penal (Artigo 171, §2º, inciso V).
A pergunta de um milhão: "Quanto vou pagar?"
A resposta frustrante: depende. Mas não é mistério — existem fatores objetivos que explicam por que uma empresa paga R$ 2 mil/ano e outra paga R$ 50 mil.
1. Atividade da Empresa (CNAE)
Uma fábrica de produtos químicos paga muito mais do que um escritório de advocacia. Quanto maior o risco de incêndio, explosão ou acidente, maior o prêmio.
2. Protecionais (Medidas de Prevenção)
Empresas que investem em segurança pagam muito menos. Itens que reduzem drasticamente o prêmio:
3. Localização
4. Valor Segurado e Coberturas Contratadas
Quanto maior o limite de garantia e mais coberturas adicionais você incluir, maior o prêmio. Mas aqui está o segredo: o custo marginal de adicionar coberturas importantes (como Lucros Cessantes) é muito menor do que o risco de ficar descoberto.
5. Histórico de Sinistros
Empresas com muitos sinistros nos últimos anos pagam mais. Algumas seguradoras podem até recusar o risco.
Para dar uma ideia:
Lembrando: são faixas genéricas. O cálculo preciso depende de vistoria técnica.
Antes de contratar ou renovar, faça essas perguntas:
Sobre o Valor Segurado:
Sobre as Coberturas:
Sobre Rateio:
Sobre Exclusões:
Se você respondeu "não sei" para qualquer item acima, sua apólice provavelmente tem buracos perigosos.
Aqui está a verdade dura: a maioria das apólices de seguro patrimonial no Brasil está errada.
Valores segurados defasados. Coberturas essenciais de fora. Cláusulas de rateio escondidas. E o pior: empresários que só descobrem isso na hora do sinistro, quando já é tarde.
Um seguro patrimonial bem estruturado não é despesa — é o que garante que sua empresa continue existindo após um evento catastrófico. É a diferença entre reconstruir em 6 meses ou fechar as portas para sempre.
Se você chegou até aqui, já sabe mais sobre seguro patrimonial do que 90% dos empresários brasileiros. Agora, a pergunta é:
Sua apólice atual cobre o Lucro Cessante ou só as paredes? E você tem certeza de que não está pagando seguro enquanto assume metade do risco por causa do rateio?
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