
Reni Rezende
Sócio e Diretor de Operações da Lifebis e atualmente atuando como Partner da MDS Corretora de Seguros. Iniciou sua trajetória em 1989 na Bamerindus Seguradora, acumulando sólida experiência de mercado com passagem também pelo Grupo HDI.

Quando a maioria dos empresários pensa em seguro patrimonial, a primeira imagem que vem à mente é a de um incêndio devastador — chamas consumindo o prédio, fumaça preta subindo, bombeiros trabalhando para controlar o desastre. É um cenário dramático, cinematográfico até. E por isso mesmo, muita gente acredita que incêndio é o principal risco contra o qual precisam se proteger.
A realidade, porém, conta uma história completamente diferente.
Estatisticamente, a cobertura de Vendaval e Granizo é a mais acionada em seguros empresariais e de condomínios no Brasil, superando amplamente tanto Roubo quanto Incêndio em frequência de sinistros. Enquanto um incêndio de grandes proporções é um evento raro e catastrófico — algo que pode nunca acontecer durante toda a vida útil de um empreendimento — vendavais acontecem todos os anos, em praticamente todas as regiões do país.
O clima brasileiro nos coloca em uma zona de risco permanente. No Sul, os ciclones extratropicais chegam com força principalmente entre junho e setembro, trazendo ventos que facilmente ultrapassam 100 km/h. No Sudeste e Centro-Oeste, as tempestades de verão entre outubro e março são implacáveis, muitas vezes acompanhadas do fenômeno conhecido como "microexplosão atmosférica" — rajadas de vento descendente extremamente violentas e localizadas. No Nordeste, embora menos frequentes, as tempestades quando chegam são igualmente destrutivas.
Ninguém está imune. E aqui está o dado mais assustador: um vendaval de apenas 10 ou 15 minutos pode paralisar sua operação por semanas, causar prejuízos de centenas de milhares de reais e, se você não tiver a cobertura adequada, comprometer seriamente a saúde financeira da empresa.
Quando você olha sua apólice de seguro empresarial, provavelmente vai encontrar uma rubrica com um nome extenso, algo como: "Vendaval, Furacão, Ciclone, Tornado e Granizo". Todos esses fenômenos estão cobertos pela mesma cláusula, porque têm natureza semelhante — são eventos climáticos de grande intensidade que causam danos através da força do vento ou do impacto de precipitações sólidas (granizo).
Telhados completos: telhas (cerâmicas, metálicas, fibrocimento, policarbonato), estrutura metálica de sustentação, calhas, rufos, cumeeiras, todo o sistema de cobertura do edifício.
Vidros e esquadrias: janelas, portas de vidro, claraboias, coberturas de policarbonato — quando quebrados pela força direta do vento ou pelo impacto de granizo.
Elementos de fachada: placas publicitárias, letreiros luminosos, anúncios fixados na parede externa, revestimentos que se soltam com a força do vento.
Portões e estruturas móveis: portões automáticos arrancados pela ventania, portas grandes de galpão que saem dos trilhos, estruturas temporárias que são destruídas.
Equipamentos externos: aparelhos de ar-condicionado fixados na parede externa (quando arrancados ou danificados pelo vento), antenas, para-raios.
A cobertura é ampla e contempla praticamente tudo que pode ser afetado por um vendaval na estrutura física do imóvel. Mas o que muita gente não percebe é que o verdadeiro prejuízo geralmente não está na estrutura em si.
Aqui está o ponto crítico que todo empresário precisa entender sobre sinistros de vendaval: o maior prejuízo quase nunca é o custo das telhas que voaram — é o valor do que foi destruído pela água que entrou depois.
Vamos colocar em perspectiva. Se um vendaval arrancar 50 metros quadrados de telha metálica do seu galpão, o custo de material e mão de obra para repor esse telhado pode ficar entre R$ 5.000 e R$ 15.000. É um valor significativo, mas gerenciável.
Agora imagine o que acontece quando, através daquele buraco de 50 m² no teto, entra uma tempestade tropical com chuva torrencial durante 2 horas. A água cai diretamente sobre:
Em questão de minutos, centenas de milhares (ou milhões) de reais em ativos são completamente destruídos pela água. E esse é o verdadeiro prejuízo do vendaval.
O seguro cobre os danos ao conteúdo (estoque, máquinas, móveis) causados pela água da chuva, DESDE QUE a água tenha entrado por causa do destelhamento ou quebra de janelas provocados pelo vendaval.
A causa e efeito precisa ser direta:
COBERTO: Vento arrancou telha → Chuva entrou pelo buraco → Molhou estoque = SINISTRO ACEITO
COBERTO: Granizo quebrou claraboia → Chuva entrou → Equipamentos eletrônicos queimaram = SINISTRO ACEITO
NÃO COBERTO: Funcionário esqueceu janela aberta → Chuva entrou → Molhou mercadorias = SINISTRO NEGADO
NÃO COBERTO: Calha entupida transbordou → Água infiltrou → Manchou produtos = SINISTRO NEGADO (problema de manutenção)
A diferença parece sutil, mas é absolutamente crucial. O seguro cobre danos decorrentes de um evento súbito e violento (o vendaval), não problemas causados por descuido, falta de manutenção ou falha em tomar precauções básicas.
Nos últimos anos, uma tendência se consolidou no mercado empresarial brasileiro: a instalação de usinas de energia solar fotovoltaica nos telhados de galpões, fábricas e centros de distribuição. É um investimento que faz todo sentido — reduz drasticamente o custo de energia elétrica e tem retorno garantido em poucos anos.
Mas esse investimento trouxe um novo risco para a cobertura de vendaval: o granizo.
Enquanto telhas convencionais resistem razoavelmente bem ao impacto de pedras de gelo de tamanho moderado, os painéis fotovoltaicos são muito mais vulneráveis. Granizos do tamanho de bolas de pingue-pongue — não incomuns em tempestades severas no Sul e Sudeste do Brasil — podem:
E aqui está o problema financeiro: uma usina solar comercial de médio porte pode ter facilmente entre 500 e 2.000 painéis instalados, com investimento total entre R$ 200 mil e R$ 2 milhões. Uma tempestade de granizo severa pode destruir 30%, 50% ou até 100% desses painéis em questão de minutos.
Se sua empresa tem ou planeja instalar painéis solares, você precisa verificar especificamente com sua seguradora se:
Muitas apólices antigas foram contratadas antes da instalação dos painéis e simplesmente não contemplam esses equipamentos de alto valor. Não descubra isso depois que o granizo já destruiu seu investimento.
Como toda cobertura de seguro, vendaval e granizo também tem suas exclusões — situações em que, mesmo havendo dano causado por vento ou granizo, a seguradora vai negar o sinistro. Conhecer essas exclusões é fundamental para não ter surpresas desagradáveis.
Esta é a negativa mais comum em sinistros de vendaval. Se a seguradora comprovar durante a perícia que o telhado foi destruído não pela força do vento em si, mas porque a estrutura já estava em estado precário, o sinistro será negado ou a indenização será reduzida.
Situações que caracterizam falta de manutenção:
A lógica é simples: o seguro cobre eventos súbitos e imprevisíveis, não problemas crônicos de manutenção que deveriam ter sido corrigidos. Se um vendaval de 60 km/h (força moderada) destrói seu telhado, mas telhados vizinhos comparáveis resistiram bem, isso é um forte indício de que o problema era estrutural, não climático.
Prevenção: faça inspeções periódicas do telhado (recomendação: no mínimo anualmente), corrija problemas pequenos antes que se tornem grandes, mantenha documentação fotográfica do estado de conservação.
Mercadorias, equipamentos ou materiais armazenados a céu aberto — sem qualquer cobertura ou proteção — geralmente não têm cobertura automática contra vendaval.
Exemplos não cobertos sem cláusula específica:
A lógica é que bens expostos permanentemente às intempéries estão em situação de risco assumido pelo proprietário. Se você quer cobertura para esses itens, precisa contratar cláusula específica de "Bens em Local Descoberto", que tem prêmio mais elevado.
Aqui está um detalhe financeiro que surpreende muitos segurados no momento do sinistro: a cobertura de vendaval quase sempre tem franquia, e às vezes essa franquia é substancial.
Enquanto a cobertura básica de incêndio muitas vezes não tem franquia nenhuma (você recebe 100% da indenização), vendaval geralmente vem com uma Participação Obrigatória do Segurado (POS) que funciona assim:
Imagine que um vendaval causou R$ 20.000 em danos no seu estabelecimento. Se sua franquia for de 10% com mínimo de R$ 3.000:
Agora imagine um prejuízo maior de R$ 100.000 com a mesma franquia:
Para pequenos danos — algumas telhas quebradas, uma janela estourada — às vezes não compensa financeiramente acionar o seguro por causa da franquia e do histórico de sinistralidade que afeta renovações futuras.
A cobertura de vendaval é desenhada principalmente para proteger você contra grandes estragos: destelhamento extenso, quebra de múltiplas janelas, destruição significativa de estoque. Pequenos reparos pontuais muitas vezes são mais econômicos se pagos diretamente do caixa da empresa.
Um dos erros mais comuns na contratação de seguros empresariais é a completa desproporcionalidade entre os limites de cobertura de diferentes garantias.
É extremamente comum ver apólices estruturadas assim:
Consegue ver o problema? O empresário está protegido contra um evento raríssimo (incêndio total) com R$ 10 milhões, mas contra o evento mais frequente de todos (vendaval) tem apenas R$ 50 mil de cobertura.
Um vendaval severo que destelha completamente um galpão industrial de 2.000 m² pode facilmente gerar:
Se você contratou apenas R$ 50.000 de limite para vendaval, vai receber apenas R$ 50.000 (menos a franquia). O prejuízo de R$ 490.000 sai integralmente do seu bolso.
O limite de vendaval precisa considerar:
Para a maioria das empresas com operação em imóvel próprio de médio porte, o limite de vendaval deveria estar entre 30% e 50% do limite de incêndio, não 0,5% como frequentemente acontece.
Diferente de muitos outros riscos empresariais, o vendaval não dá sinais prévios. Não há como saber com uma semana de antecedência que uma microexplosão atmosférica vai atingir exatamente seu galpão na quinta-feira à tarde. Tempestades severas se formam em horas, às vezes minutos.
E quando acontece, os danos são imediatos, extensos e potencialmente devastadores para o fluxo de caixa da empresa. Uma cobertura de vendaval adequadamente dimensionada não é luxo — é uma necessidade operacional básica para qualquer negócio que opere em estruturas físicas no Brasil.
Revise sua apólice hoje. Verifique os limites. Compare com o valor real dos ativos que poderiam ser afetados. E não cometa o erro de proteger maciçamente contra o risco raro (incêndio) enquanto fica vulnerável ao risco comum (vendaval).
Sua empresa merece proteção proporcional à realidade climática do país onde opera.
Quer saber como proteger o patrimônio também contra roubo, incêndio e outros riscos? Leia nosso Guia Completo de Seguro Patrimonial.
Sua empresa tem telhado metálico, galpão amplo ou painéis solares no telhado? Solicite uma revisão do seu limite de Vendaval com a Lifebis. A maioria das apólices está perigosamente subdimensionada para esse risco. Proteja-se agora antes da próxima tempestade.
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